ARTIGO

Violência de gênero e a urgência em proteger o amanhã

Uma nação que enterra suas mulheres e negligencia o abuso de suas crianças está falhando em sua função biológica e ética mais básica: a preservação da vida

Ilustração Violência contra mulher -  (crédito: pacifico)
Ilustração Violência contra mulher - (crédito: pacifico)

Andréa Jácomopediatra, professora de medicina do Ceub e coordenadora do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria do DF

No 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher, confesso que foi difícil comemorar este ano. Desconfio que por estar acompanhando de perto as mudanças físicas, psicológicas, sociais e os questionamentos tanto da minha filha de 15 anos quanto do meu filho de 12 anos diante das notícias estarrecedoras envolvendo adolescentes da idade deles. Não há como celebrar quando o cenário epidemiológico da violência de gênero apresenta indicadores tão letais e devastadores.

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Nas salas de aula do curso de medicina, quando discutimos gravidez na adolescência, ensino meus alunos a observar o cenário e identificar fatores de risco para trabalhar a prevenção. No entanto, as manchetes recentes não exigem um olhar clínico treinado para serem lidas como sintomas de um colapso civilizatório. O aumento dos índices de feminicídio no Brasil não é apenas um dado estatístico; é a prova de que o domicílio, as escolas e até universidades, que deveriam ser o porto seguro para o desenvolvimento infantil e juvenil, tornaram-se, para muitas, o local de maior vulnerabilidade.

Como processar a notícia da absolvição de um homem que se casa com uma criança de 12 anos? Na pediatria, baseamo-nos em evidências para afirmar que a maturação neurológica e emocional nessa idade é incompatível com qualquer forma de consentimento para uniões conjugais. Validar isso juridicamente é institucionalizar o abuso e retroceder décadas na proteção da infância. É dizer às nossas meninas que seus corpos são territórios negociáveis antes mesmo de serem compreendidos por elas mesmas.

O horror ganha contornos ainda mais sombrios quando o inconformismo com o término de um relacionamento transborda em filicídio. O caso do pai que retira a vida dos dois filhos e a própria, apenas para punir a ex-companheira, é a manifestação mais cruel da posse tóxica. Para mim, no consultório, o bem-estar da criança é absoluto. Ver crianças sendo usadas como ferramentas de vingança contra mulheres é, para além de triste, um trauma coletivo que ecoará por gerações.

E o que dizer do estupro coletivo de uma jovem de 17 anos no Rio de Janeiro, perpetrado por seus colegas de escola? Aqui, o ambiente educativo, que deveria ser o berço do respeito e da alteridade, transformou-se em palco de uma barbárie que nos interroga: que tipo de masculinidade estamos ajudando a construir? Como mãe, olho para minha filha e sinto um aperto no peito que a medicina não cura; como professora, penso nas dificuldades que minhas alunas já superaram e no que vão enfrentar. Elas estão entrando na vida adulta em um mundo em que  o convívio acadêmico e profissional pode esconder predadores disfarçados de pares.

A prática baseada em evidências nos ensina que a prevenção primária é o melhor caminho. Isso significa que não basta punir; é preciso reeducar. Precisamos de políticas públicas que não sejam apenas reativas, mas que atuem na raiz do problema: a desconstrução da ideia de que a mulher é um objeto sob domínio masculino. Neste mês de março, o meu "parabéns" é substituído por um manifesto de urgência. Brasília, como centro das decisões políticas, precisa liderar essa resposta. Não podemos aceitar que a violência contra a mulher seja tratada como um ruído de fundo na nossa rotina.

À minha filha, às minhas pacientes e às minhas alunas, tento ensinar a importância da valorização da vida, da autonomia e da liberdade como o seu bem maior. Ao meu filho, aos meus pacientes e aos meus alunos, ensino que a saúde de uma mulher começa pela garantia de sua integridade física e psicológica. E à sociedade, deixo o alerta: uma nação que enterra suas mulheres e negligencia o abuso de suas crianças está falhando em sua função biológica e ética mais básica: a preservação da vida. Não tenho dúvida de que devemos a reversão da absolvição no caso do casamento das meninas de 12 anos, aconteceu em muito graças à pressão da opinião pública.

Que o meu luto e de tantas mulheres deste ano se transforme na força motriz para mudanças estruturais. Que a justiça seja o remédio que cura a impunidade e que a educação seja a vacina contra a violência estruturada contra nossas meninas. Somente assim, quem sabe em um futuro próximo, o Dia da Mulher poderá ser, enfim, uma celebração plena e não um grito de socorro.

 

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Por Opinião
postado em 24/03/2026 06:00
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