
Daniela Coutinho — vice-presidente da Abrace Energia, associação que representa os grandes consumidores de energia elétrica e gás natural
A história mostra que energia e geopolítica caminham juntas. Em diferentes momentos, conflitos internacionais tiveram na energia um de seus elementos centrais — seja pela disputa por recursos, seja pela dependência de determinadas fontes. Mais uma vez, o mundo acompanha uma guerra em que o tema energético aparece no centro das atenções, influenciando preços, cadeias produtivas e decisões estratégicas de governos e empresas.
Essa realidade reforça uma lição importante: energia não é apenas um insumo produtivo. É um fator determinante de competitividade econômica e de soberania nacional.
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No atual contexto de transição energética, reorganização das cadeias globais e corrida tecnológica, países capazes de oferecer energia abundante, limpa e a preços competitivos tendem a sair na frente. Energia tornou-se um ativo estratégico para atrair investimentos, fortalecer cadeias industriais e liderar novas tecnologias — uma verdadeira alavanca para o desenvolvimento.
Sob esse aspecto, poucos países no mundo estão tão bem posicionados quanto o Brasil. Nossa matriz elétrica é majoritariamente renovável, e o país possui um dos maiores potenciais do planeta para expandir a geração de energia limpa. Esse diferencial deveria nos colocar em posição privilegiada para liderar a transição energética global e impulsionar uma nova etapa de desenvolvimento industrial.
Mas, vivemos um grande paradoxo: temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, mas ainda não conseguimos transformar essa vantagem comparativa em competitividade econômica. Hoje, uma parcela significativa do custo da energia no país não está relacionada à geração, mas a encargos, subsídios cruzados e ineficiências do próprio setor.
O impacto vai muito além da conta de luz. A energia está presente em praticamente tudo que consumimos. Levantamentos indicam que 41,5% do custo da energia está embutido no preço das mercadorias e 26,9% nos serviços. Energia cara não pesa apenas na conta de luz: ela encarece produtos, serviços e pressiona diretamente o custo de vida da população.
Para a indústria, esse problema é ainda mais crítico. Os setores representados pela Abrace respondem por quase 40% do consumo industrial de eletricidade no país e têm papel central na geração de investimentos, empregos e inovação.
Sem energia competitiva, o Brasil perde capacidade de produzir, investir, inovar e gerar empregos. E desperdiça justamente o que poderia ser sua maior vantagem comparativa: uma matriz energética limpa e abundante.
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Esse debate precisa ganhar centralidade no cenário político. Em um ano eleitoral, é fundamental que os candidatos incorporem a agenda da energia em seus planos de governo.
Garantir energia a preços justos não é apenas uma pauta setorial, é uma estratégia de desenvolvimento nacional. Reduzir o custo da energia para a indústria significa ampliar a competitividade do país, atrair novos investimentos e fortalecer cadeias produtivas. Significa também criar as condições necessárias para acelerar a descarbonização da produção industrial, gerar empregos de qualidade e promover crescimento sustentável.
O Brasil tem todas as condições para liderar a transição energética global e transformar energia em um poderoso motor de desenvolvimento. O que falta não é potencial — é decisão política para remover distorções, reduzir custos e permitir que a energia cumpra um papel estratégico para a economia.
A energia pode — e deve — ser um dos pilares do desenvolvimento brasileiro nas próximas décadas.

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