
São 4h30 de uma madrugada insone. Lá fora, o silêncio é entrecortado por poucos carros, talvez alguns conduzidos também por insones. Minha mente viaja até Tel Aviv, onde estive por duas vezes. A cidade cosmopolita e vibrante, erguida à beira do Mar Mediterrâneo, acaba de ser atacada outra vez. Um míssil iraniano caiu entre dois prédios, e os destroços da arma que veio do céu feriu seis pessoas. Aproveito para visitar Teerã, a 1.525km dali, ou a duas horas e meia de voo. Desde 28 de fevereiro, explosões ecoam pela metrópole de 9,6 milhões de pessoas.
Bombas e mísseis despencam, quase que aleatoriamente, em busca de integrantes do regime teocrático islâmico xiita. Caçam lideranças persas e, quase sempre erráticos, atingem gente comum, que não pediu pela guerra. É madrugada e, provavelmente, os senhores da guerra dormem o "sono dos justos" em suas suítes climatizadas de seus palácios.
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No fone de ouvido, escuto War Pigs, de Black Sabbath. Composta pelo baixista Geezer Butler, a canção tem poderosa verve de manifesto antibelicista. "Generais reunidos em massa, como bruxas em missas negras. Mentes malignas que tramam destruição. Feiticeiro da construção da morte. Nos campos, os corpos queimando, enquanto a máquina de guerra continua girando. (...) Os políticos se escondem. Eles só começaram a guerra. Por que deveriam ir lutar? Eles deixam esse papel para os pobres, sim", diz a letra da canção eternizada por Ozzy Osbourne.
A guerra de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu se encaminha para um fim sem vencedores. Talvez influenciado pela sanha de Israel em destruir um regime que considera uma ameaça existencial, o presidente dos Estados Unidos embarcou numa aventura sem planejamento. Menosprezou o coringa nas mangas dos aiatolás: o petróleo. O preço do barril da commodity explodiu e tornou-se ameaça à petulância do Tio Sam.
Se Trump esperava uma reação lânguida de Teerã e o rápido colapso do regime, ficou na expectativa. Em 26 dias de guerra, o fechamento do Estreito de Ormuz — via marítima por onde escoam 20% da produção petrolífera mundial — e a disposição do Irã de levar a guerra aos quatro cantos do Oriente Médio deixaram a Casa Branca em apuros. Os mísseis balísticos hipersônicos iranianos romperam o escudo de defesa israelense e puseram fim à mística da infalibilidade do Domo de Ferro. No sábado, o Irã atingiu Dimona, cidade que abriga o maior reator nuclear de Israel, e Arad, ambas no sul de Israel. Cerca de 200 pessoas ficaram feridas. Foi uma amostra da vulnerabilidade do Estado judeu. Se Trump deixar a arena de combate, Netanyahu ficará em maus lençóis.
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Trump e Netanyahu estão moldando o antiamericanismo e o antissemitismo, e tornando o mundo um pouco mais inseguro, principalmente para seus compatriotas. Não me surpreenderia se o Irã transformasse o programa nuclear em propósito militar como símbolo de orgulho nacional e de desafio ao imperialismo.
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