Opinião

"Livre, sim. Mas só como eu quiser"

As democracias, especialmente em vésperas de eleições, devem dedicar-se mais a criar vacinas contra bilionários que decidem o que seja ou não o "interesse público"

pri-INTERNET -  (crédito: Maurenilson Freire)
pri-INTERNET - (crédito: Maurenilson Freire)

Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa se viu em sua cama, deitado sobre as costas. Levantou um pouco a cabeça, desviou os olhos de sua barriga e estendeu o braço para a cabeceira, onde pegou o celular, e, como sempre, abriu o navegador para conferir sua rede social. Assustou-se.

"O que aconteceu?", ele pensou. Não era um sonho. Em lugar de sua foto e dos posts de amigos e perfis de seu interesse, um texto lhe advertia que havia sido suspenso da rede, "por violar os padrões da comunidade".

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

Ao ler os tais "padrões da comunidade", Gregor espantou-se, de cara, ao notar que a multinacional dona de suas redes sociais, a mesma multinacional que nos tribunais grita pela "liberdade de expressão" contra governos que cogitam leis para regular abusos, afirma que limita a expressão conforme critérios definidos por ela mesma, porque a Internet "cria novas e maiores oportunidades de abuso". 

Sentindo-se um inseto por ter transgredido tão nobres propósitos, Gregor Samsa, desorientado como uma barata tonta, leu, em seguida, a confissão franca dos bilionários donos da rede social: "Em alguns casos, permitimos conteúdo que não segue nossos padrões, caso seja interessante e tenha interesse público". 

O que é "interessante" ou "de interesse público", explica a multinacional dona da rede, é o que sua "equipe de Política de conteúdo" definir como tal, seguindo conceitos que reconhecem ser algo "altamente subjetivo". Diferentemente dos governos, as redes julgam e punem a portas fechadas, num processo kafkiano. 

Gregor Samsa, pensativo, espera ver nessas redes em breve um artigo recente, interessantíssimo, do neurocientista Álvaro Machado Dias, da Folha de S. Paulo, em que ele conta como as redes mudaram seu mecanismo de espalhamento de publicações, os algoritmos que impulsionam posts pela comunidade. Antes voltados à propagação de textos com muitas reações passivas, como compartilhamentos ou "likes", os algoritmos agora dão maior relevância a manifestações que geram comentários, criam polêmica, direcionam conversas.

Samsa lembrou-se de outro artigo interessante, sobre como animais infectados por bactérias têm seu sofrimento aumentado pela própria reação do organismo contra o micróbio, que inflama o corpo, aumenta secreções, dificulta o funcionamento dos órgãos. Assim no corpo, como nas redes: reações indignadas, comentários ofendidos, a reprodução de imagens chocantes, tudo contribui para dar maior alcance a esse tipo de conteúdo, influir em corações e mentes. As próprias redes reconhecem o mal que podem fazer numa democracia conectada.

Há uma ferramenta poderosa, as vacinas, contra vírus, bactérias e outros micróbios. Samsa, esperneando indefeso contra a arbitrariedade da rede em que confiava inocentemente, aprendeu, ao ler os imperiais "padrões da comunidade", que as democracias, especialmente em vésperas de eleições, devem dedicar-se mais a criar vacinas contra o imenso poder privado de bilionários autonomeados déspotas esclarecidos, que decidem o que seja ou não o "interesse público".

  • Google Discover Icon
postado em 30/03/2026 06:00
x