Denilde Holzhacker — professora de relações internacionais da ESPM
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Após semanas de pressão e negociações que pareciam caminhar para um acordo, os ataques conduzidos desde o último sábado por Estados Unidos e Israel contra o Irã inauguraram uma nova fase de instabilidade no Oriente Médio. A operação, apresentada como tentativa de enfraquecer ou mesmo derrubar o regime dos aiatolás e destruir as capacidades nucleares e militares iranianas, rapidamente assumiu possibilidade de ampliação regional. Seus efeitos já se fazem sentir na questão energética, na coesão política interna e no delicado equilíbrio geopolítico global.
A resposta de Teerã foi rápida e calculada. Mísseis balísticos e drones foram lançados não apenas contra Israel, mas também contra países do Golfo, como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Catar e Kuwait. Ao atingir infraestruturas civis — entre elas aeroportos, refinarias e instalações energéticas —, o regime iraniano deixou clara sua estratégia: redistribuir os custos da guerra entre aliados regionais de Washington. A interrupção de grandes hubs aéreos, como Dubai e Doha, sinaliza que o conflito já afeta cadeias logísticas globais e pressiona mercados. A ameaça ao Estreito de Ormuz, por onde passa parcela significativa do comércio mundial de petróleo, elevou a volatilidade e impulsionou o aumento dos preços globais.
Internamente, o eventual colapso do regime iraniano pode desencadear consequências imprevisíveis. Os persas representam cerca de 60% da população, enquanto o restante é composto por minorias — como azeris, curdos, árabes e balúchis —, muitas com vínculos além das fronteiras nacionais. Um vácuo de poder em Teerã poderia estimular movimentos separatistas e gerar uma fragmentação política com efeitos que alcançariam Turquia, Iraque e países do Golfo, inclusive na forma de fluxos massivos de refugiados. Após a declaração da morte de Ali Khamenei, a rápida designação de um novo aiatolá para conduzir a transição indica a tentativa do regime de manter controle rígido sobre o processo sucessório e evitar a ascensão de lideranças com forte apelo popular que possam ameaçar os atuais detentores do poder.
No plano regional, os países do Conselho de Cooperação do Golfo tendem a aprofundar sua coordenação defensiva. A recente onda de ataques pode acelerar projetos de integração de sistemas de defesa aérea e consolidar uma frente comum contra a influência iraniana. Paradoxalmente, a agressividade de Teerã pode aproximar ainda mais monarquias árabes de Israel, desde que o governo israelense sinalize compromisso com uma solução política para a questão palestina. Sem esse gesto, qualquer rearranjo estratégico será limitado e frágil, pois carecerá de legitimidade perante as opiniões públicas da região.
A postura americana, associada a uma estratégia de mudança de regime, reacende o debate sobre precedentes perigosos nas relações internacionais. Ao legitimar intervenções com o objetivo de derrubar governos hostis, Washington abre espaço para que outras potências invoquem lógica semelhante nos próprios conflitos. Rússia e China acompanham atentamente. Moscou pode explorar essa perspectiva para reforçar sua posição na Ucrânia, enquanto Pequim observa o desempenho de sistemas militares ocidentais e recalibra seus cálculos em relação a Taiwan. O que ocorre no Golfo ecoa no Leste Europeu e no Indo-Pacífico.
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A Europa, embora condene os ataques iranianos contra alvos civis, teme ser arrastada para uma escalada maior. Bases britânicas já foram atingidas, e operações navais no Mediterrâneo e no Mar do Norte indicam crescente militarização do entorno europeu. Além disso, a dependência energética torna o continente vulnerável a novos choques de oferta. Caso suas instalações militares sejam novamente atacadas, governos europeus poderão ser pressionados a responder de forma mais contundente, ampliando o envolvimento no conflito.
Os desdobramentos também influenciam os contextos domésticos em Israel e nos Estados Unidos. Vitórias militares rápidas tendem a fortalecer lideranças no curto prazo, mas a história recente demonstra que sucessos táticos nem sempre se convertem em ganhos estratégicos duradouros. Sem uma arquitetura diplomática que consolide resultados e ofereça horizonte de estabilidade, a região corre o risco de mergulhar em novo ciclo de violência, ampliando ameaças e radicalizando atores não estatais alinhados ao Irã. O desfecho permanece incerto, e as decisões tomadas nas próximas semanas poderão definir o futuro da região.
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