Os ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã ganharam novos contornos nesta segunda-feira, se expandindo pelo Oriente Médio e trazendo mais atores ao centro do conflito. Configurado o cenário de guerra regional, qualquer tipo de apaziguamento tende a ficar mais complexo e demorado. Há, agora, mais interesses no front, e a preocupação primeira de um impacto global mais restrito a aspectos econômicos, ainda que sejam volumosos, se torna simplista.
A entrada do Hezbollah é um dos pontos críticos do agravamento da crise. A organização paramilitar que tem relação umbilical com o Irã e base principal no Líbano lançou foguetes e drones no norte israelense em retaliação à morte do líder supremo Ali Khamenei, ocorrida no sábado. Israel respondeu com amplo bombardeio em todo o território libanês, incluindo o entorno da capital, Beirute, e a promessa de que a intensidade dos ataques vai aumentar no país. De imediato, 52 pessoas morreram e ao menos 28 mil foram forçadas a deixar suas casas, segundo a Unidade de Gestão de Desastres do governo local.
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É mais gasolina sobre um território em tensão desde 7 de outubro de 2023, quando o Hamas invadiu o sul do Estado judeu por terra, céu e mar, dando início a uma das guerras mais sangrentas na região em décadas. O Hezbollah entrou no confronto no dia seguinte, e , segundo a ONU, a resposta israelense mergulhou os libaneses em um dos momentos "mais mortais da história recente do país", com cerca de 2 milhões de pessoas impactadas pelo conflito desde então. Ainda que o grupo xiita esteja enfraquecido por esse confronto estendido com Israel, não é exagero esperar que a nova escalada agrave a crise humanitária libanesa, podendo impulsionar, inclusive, nova onda migratória.
Entre os iranianos, a imprevisibilidade quanto ao futuro do país e a divisão interna sobre a legitimidade da ofensiva que matou os principais líderes também ganham corpo. Trata-se de combinação perigosa, propícia a mais desrespeitos a preceitos humanitários. Ao Correio, a ativista iraniano-americana Masih Alinejad descreveu que seus compatriotas experimentam, ao mesmo tempo, dor e esperança após a morte de Khamenei, e disse esperar represálias, como intimidações, bloqueio da internet e violências mais explícitas.
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No começo do ano, manifestações motivadas pela situação econômica do Irã foram reprimidas com a mão pesada do regime. O governo admitiu 3.117 mortes, mas organizações de direitos humanos calculam o dobro de óbitos e mais de 11 mil pessoas gravemente feridas, além de 42 mil prisões. "A liberdade não é automática. Ela é paga com sangue. É isso que os iranianos estão fazendo: sacrificando sua vida para se livrar dessa ditadura religiosa", avalia a ativista. A expectativa de Masih é de que a ação coordenada dos Estados Unidos e de Israel "rache o sistema de medo" que impera no Irã, tendo como alvo, sobretudo, as mulheres. "A questão não é se as mulheres estão preparadas (para as represálias). Elas estão. A questão é se o regime consegue ainda impor medo. Eu acho que não."
O certo é que a ampliação do confronto é acompanhada pelo bombardeio de infraestruturas civis, como prédios, aeroportos, escolas e hotéis. A ONU conclama pela "cessação imediata das hostilidades e por um diálogo e negociações genuínas". Ainda que sob grave crise de representatividade, a organização faz seu papel. Quem diz seguir princípios civilizatórios precisa fazer o mesmo: o direito internacional humanitário não pode estar sob a mira de drones e mísseis.
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