OPINIÃO

O Brasil que mata, mas é avesso a guerras

Cordialidade pode mascarar a raiva, a violência e o desrespeito às regras sociais, com profundas raízes coloniais. A guerra do Brasil é interna

A crise política e diplomática no Oriente Médio não é uma novidade. Contudo, é seguro afirmar que, desta vez, as coisas parecem um pouco mais extremas. A sensação é de fim do mundo e, obviamente, todos estão preocupados. Mas vale refletir onde o brasileiro se encaixa neste planeta em convulsão. Avesso à guerra, somos o povo da paz?

Desde o começo dos primeiros bombardeios dos Estados Unidos e Israel ao Irã, as redes sociais estão tomadas de memes brincando que o brasileiro não entra em guerra, que todos estão ocupados demais se preparando para as festas juninas ou que o mundo só está em conflito porque não pularam o carnaval conosco. Mesmo de forma jocosa, esses argumentos guardam algum sentido, ainda que esqueçam um detalhe importante.

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O Brasil tem uma longa tradição diplomática e de busca por soluções pacíficas. A posição oficial do governo, em diversos cenários, prioriza a mediação e o diálogo em detrimento de confrontos armados. Essa postura é um princípio constitucional, refletido até na atuação do país em missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU).

Outro fator relevante para a aversão brasileira às guerras é o que chamo de "cantinho do sossego". Geograficamente, o Brasil está distante dos principais focos de tensão global. As fronteiras do país são bem delimitadas e históricas, o que evita questionamentos territoriais — uma sorte tupiniquim.

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Talvez você esteja pensando: "a identidade cultural brasileira também é avessa a conflitos". Foi nisso que pensei enquanto cobria os primeiros ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, no sábado retrasado. "O Brasil não tem a mínima vocação para a guerra". Mas acho que estou enganado.

A verdade é que, enquanto o mundo volta os olhos para o Oriente Médio e para o Leste Europeu, o Brasil encerrou 2025 com um saldo de mortes que rivaliza com zonas de combate real. De acordo com dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou 34.086 mortes violentas intencionais (MVI) no último ano.

Apesar da queda de 11% em relação ao período anterior, o índice mantém o Brasil em um patamar de letalidade superior ao de diversos conflitos internacionais contemporâneos. O montante supera o total de baixas civis confirmadas em quatro anos de guerra na Ucrânia — cerca de 15 mil, segundo a ONU. O número de soldados mortos naquele conflito ficou em cerca de 55 mil, conforme balanço do governo ucraniano.

Embora o conceito de "homem cordial", de Sérgio Buarque de Holanda, seja frequentemente mal-interpretado, ele fundamenta a percepção do brasileiro: um povo que busca o convívio social e evita o confronto institucionalizado — como as guerras civis ou étnicas comuns em outras nações —, mas que não é necessariamente benevolente. A cordialidade pode mascarar a raiva, a violência e o desrespeito às regras sociais, com profundas raízes coloniais. A guerra do Brasil é interna.

 

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