Visão do Correio

O fantasma dos furtos no Brasil

O que antes era um delito de oportunidade, hoje é o combustível de uma cadeia complexa que envolve receptação qualificada, revenda de peças e de produtos em pontos físicos e até mesmo por meio da internet

Uma mudança na dinâmica da criminalidade vem ocorrendo de forma quase silenciosa no Brasil. Enquanto os índices de ocorrências violentas, como o homicídio, apresentam quedas graduais em diversas capitais, o furto — que não causa marcas de sangue, mas deixa um profundo impacto psicológico nas vítimas — segue uma trajetória inversa e alarmante.

Números mais recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam a resistência maior à redução desse registro, especialmente nas grandes cidades. Os dados ainda apontam que esse ato delituoso atinge várias camadas da sociedade, além de desafiar o setor de segurança em níveis variados. 

Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular

Uma das leituras possíveis sugere a ocorrência de uma "especialização" desse tipo de crime: o que antes era um delito de oportunidade, hoje é o combustível de uma cadeia complexa que envolve receptação qualificada, revenda de peças e de produtos em pontos físicos e até mesmo por meio da internet. Nesse cenário, discutir sobre a falta de policiamento ostensivo é fundamental, mas outros pontos importantes se colocam para a solução das questões envolvendo os furtos.

Um deles é a falha na punição. O sistema judiciário, muitas vezes, trata a ocorrência sob o princípio da insignificância ou por meio de decisões que permitem ao infrator retornar às ruas antes mesmo de a vítima concluir a burocracia do boletim de ocorrência. Esse "ciclo" acarreta uma dose considerável de impunidade que desestimula a denúncia e mantém os autores dos delitos em atividade quase constante.

https://www.correiobraziliense.com.br/webstories/2025/04/7121170-canal-do-correio-braziliense-no-whatsapp.html

O risco da perda patrimonial — que faz o cidadão alterar a rotina, deixar de frequentar espaços públicos e viver sob aparatos de vigilância que pesam no orçamento — também impacta a economia nacional, causando prejuízos bilionários. Na conta dessa "sangria," entram o preço do objeto subtraído e uma série de valores, interferindo, inclusive, no Orçamento da União. As avaliações recentes sinalizam que furtos, roubos e estelionatos devem gerar perdas equivalentes a cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB).

Para reverter esse quadro, o Brasil precisa ir além do que vem fazendo. O investimento maior em inteligência, focando o rastreio financeiro dos "administradores" dos esquemas, é urgente. Partir de forma firme para a identificação e o posterior fechamento de estabelecimentos que operam a receptação é outra medida essencial. Usar a tecnologia como barreira de furtos e arma de investigação deve ser prioridade. Criar mecanismos para garantir que o infrator seja punido, sem necessariamente lotar ainda mais os presídios, mas  por meio de monitoramento e de penas alternativas eficazes, completa o rol de ações necessárias.

O país não pode aceitar o furto como "de baixo potencial ofensivo", dificultando formas de coibir a prática. Tratar o pequeno delito com a seriedade é o caminho para assegurar o direito básico de viver sem a sombra da subtração da paz e dos bens conquistados com trabalho.

 

Mais Lidas