A "excursão de curto prazo" de Donald Trump deixou, pelo caminho, mais de 1.200 cadáveres e um país arrasado pelas bombas. Sob a pretensão de libertar os 93 milhões de iranianos do jugo de um regime teocrático islâmico, o presidente dos Estados Unidos iniciou uma guerra sem saber como terminaria. Arrastou todo o Oriente Médio para o caos. De quebra, derrubou mercados do mundo inteiro, ao minimizar o fator "economia" e não levar em conta que o Irã poderia fechar o Estreito de Ormuz, interrompendo o tráfego de navios em uma área responsável pelo escoamento de 25% do petróleo mundial.
Oito dias depois do assassinato do aiatolá Ali Khamenei, a Assembleia dos Experts — órgão consultivo de 88 clérigos iranianos — escolheu Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder supremo, para sucedê-lo no cargo de autoridade máxima do Irã e autoridade do xiismo, uma das correntes do islã. Qualquer pessoa medianamente inteligente perceberia que a eleição de Mojtaba foi uma resposta ao próprio Trump. A mensagem é a seguinte: o regime segue de pé. Mesmo que a morte de Ali Khamenei tenha sido um golpe ressonante no sistema de poder dos aiatolás, a ferida foi rapidamente estancada.
Se Trump acredita que pode replicar o modelo de governo da Venezuela pós-Maduro no Irã, está seriamente enganado. A guerra no Oriente Médio conta com a participação ativa de Israel, considerado inimigo mortal dos iranianos. Os Estados Unidos também são vistos por grande parte dos xiitas, especialmente pelos mais fundamentalistas, como o "Grande Satã". É ridículo supor que o país persa aceitaria negociar com tais agressores uma paz forçosamente artificial.
Megalomaníaco por convicção, Trump parece rejeitar os riscos de uma mal engendrada aventura bélica. Em ano eleitoral, quando os Estados Unidos renovarão parte do Legislativo, e os republicanos podem perder maioria no Senado e na Câmara dos Representantes, qualquer medida que coloque em xeque a integridade física de civis e militares pode surtir danos políticos para Trump.
Até o momento em que escrevo este artigo, sete soldados americanos haviam morrido na guerra. O risco de atentados contra cidadãos e interesses dos Estados Unidos pode reverter-se em prejuízo para o republicano. O "libertador" da Casa Branca pode ter transformado o mundo em um ambiente muito mais inseguro. Não é preciso ser gênio para prever que o antiamericanismo e o antissemitismo crescerão muito, especialmente entre os muçulmanos. No rastro do ódio, podem vir atentados terroristas e atos violentos contra cidadãos dos Estados Unidos e de Israel.
Nem terminou a guerra no Irã, Trump ameaçou Cuba. O presidente avisou que o regime comunista da ilha caribenha também cairá. Longe de ser um Simón Bolívar dos tempos modernos, o republicano provavelmente abandonará os cubanos à própria sorte. Afinal de contas, a única coisa que conta realmente para os Estados Unidos é o "money".
