ROSE MAY CARNEIRO, professora de audiovisual da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, membro do grupo de pesquisa (CNPQ), Gênero, Comunicação e Sociabilidade e líderdo projeto Cine Pipoca no Rolê
Há algo deliciosamente irônico quando o Brasil chega ao Academy Awards. Em Los Angeles, a cidade muda de ritmo no dia da cerimônia. Helicópteros cruzam o céu sobre a Hollywood Boulevard. Flashes surgem cedo. Caminhões descarregam estruturas, estilistas fazem ajustes de última hora e jornalistas ocupam cada metro do tapete vermelho como quem espera uma procissão contemporânea. Artistas, técnicos e produtores atravessam aquele corredor de luz entre expectativa, nervosismo e alívio. Cada passo vira espetáculo. É o grande ritual do cinema mundial. Curioso é perceber que, do outro lado do continente, o nosso domingo segue outro compasso.
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No Brasil, o domingo nasce com outra luz. As feiras livres abrem cedo, com cheiro de pastel e caldo de cana. Nas cozinhas, panelas preparam almoços generosos. Lasanha, frango assado, macarrão fumegante. Famílias se reúnem à mesa em um ritual silencioso de afeto. A televisão ligada oscila entre programas jornalísticos e de auditório, vizinhos conversam nas calçadas, crianças ocupam a rua sem pressa. É um país que desfila o seu próprio tapete vermelho cotidiano. Menos glamouroso, mais humano. E é desse cenário popular que muitas das nossas imagens ganham forma antes de encontrar a tela grande.
Somos um país que inventa imagens todos os dias. Elas nascem nas ruas, nas festas, na luta diária do nosso povo e nas nossas contradições. Por muito tempo, parecemos pedir licença diante da indústria que transformou o cinema em monumento dourado. Mesmo assim chegamos lá, outra vez. Em 2026, o Brasil aparece com O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura. O filme disputa quatro categorias importantes: Melhor filme, Melhor elenco, Melhor ator e Melhor filme internacional. Ao mesmo tempo, o diretor de fotografia Adolpho Veloso concorre pela imagem de Sonhos de Trem. Não é pouco. É o cinema brasileiro batendo à porta de Hollywood com poesia e teimosia. E essa presença tem história.
Nossa relação com o Oscar atravessa décadas. Em 1963, O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, tornou-se o primeiro filme brasileiro indicado a Melhor filme estrangeiro. O drama levou ao mundo a força da religiosidade popular e das tensões sociais do país. Depois vieram O Quatrilho, que revelou o universo da imigração no sul, e O Que É Isso, Companheiro?, que expôs ao público internacional as cicatrizes da ditadura. Já Central do Brasil, dirigido por Walter Salles, transformou a travessia de duas almas solitárias em retrato sensível do país profundo.
Nos anos 2000, Cidade de Deus sacudiu o cinema mundial com quatro indicações. Direção, roteiro adaptado, montagem e fotografia. O filme apresentou uma estética urbana vibrante e provou que nossas histórias dialogam com a linguagem global do cinema contemporâneo. Em 2025, o país voltou a prender a respiração diante da tela. O novo trabalho de Walter Salles — Ainda estou aqui — reacendeu expectativas. E havia o carisma de Fernanda Torres, lembrando ao mundo que nossas atrizes carregam inteligência, humor, verdade e humanidade capazes de atravessar qualquer fronteira.
O Brasil também apareceu em outras frentes do Oscar. Documentários como Raoni, Lixo Extraordinário, O Sal da Terra e Democracia em Vertigem. Animações como O Menino e o Mundo. Curtas como Uma História de Futebol. Cada indicação foi uma carta ao mundo. Sim, também contamos histórias. E nossos roteiros têm algo singular. Misturam realismo social, poesia popular e observação documental. O sertão vira metáfora universal. A favela pode se tornar épico urbano. Uma viagem de ônibus revela mais sobre o país do que muitos tratados.
Filmar no Brasil sempre foi um gesto de resistência. Falta de recursos, instabilidade institucional, salas de cinema transformadas em estacionamentos ou templos religiosos. Ainda assim o cinema insiste. Glauber Rocha resumiu esse espírito. "Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça." Helena Solberg lembrou que filmar também é disputar quem narra o mundo. Anna Muylaert fala da teimosia e do afeto. Cacá Diegues dizia que o cinema brasileiro sempre existiu contra alguma coisa.
Escrevo também como professora de Cinema na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Sei o impacto desses momentos nas salas de aula. Para nossos estudantes, o Oscar é mais que um prêmio. É combustível simbólico. A prova de que histórias nascidas em exercícios acadêmicos, celulares improvisados e roteiros inseguros podem atravessar oceanos.
Talvez, o Brasil nunca tenha sido um estranho nesse palco dourado. Desde os anos 1960, nossas imagens circulam ali. Às vezes discretas, às vezes explosivas. O que muda agora é a consciência de que nossa identidade cinematográfica não precisa pedir licença.
Seguimos filmando. Entre ironia e esperança. Entre precariedade e invenção. O essencial é manter acesa a luz do projetor. E, quem sabe, hoje seja um desses domingos brasileiros, entre o pregão do feirante — "olha a laranja, freguesia!" — possamos ouvir outro chamado ecoando lá de Los Angeles, na noite do Academy Awards: "And the Oscar goes to… Brasil!". Porque nosso cinema chega assim. Na raça. Na voz. Quase como um grito de feira.
