O silêncio virou artigo de luxo. Há um turbilhão de vozes dissonantes que ecoam a partir das redes sociais, como se toda e qualquer opinião fosse válida e necessária, como se cada um de nós fôssemos especialistas da vida, inclusive da vida dos outros. Faz falta ouvir o nada, observar o vazio, ignorar os ruídos e meditar profundamente sobre o que, afinal, nos trouxe a essa existência, hoje tão privada de sentidos. Sobretudo, vale refletir sobre quais guerras devemos entrar, porque no fundo muitas são apenas disfarces públicos para ocultar interesses privados.
O negócio é que estamos nesse mundo para jogo e faz parte do jogo a gritaria das torcidas, ainda que beire o insuportável. Nem chegou a campanha eleitoral de fato e já estamos exaustos. Acompanho com enorme impaciência a ridícula polêmica sobre a deputada federal Erika Hilton, do PSol, ocupar a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos das Mulheres da Câmara Federal. Erika tem direito, competência e legitimidade de estar onde está. E ponto final. A gritaria soa como disfarce para deixarmos de discutir o que de fato precisa ser discutido. Por isso, o debate público é enfraquecido, contaminado e contraproducente.
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O que estão nos escondendo? Sempre penso nisso quando tentam fritar nossos miolos com polêmicas fabricadas, que se alastram de forma ruidosa. A sensação é que damos um passo a frente e dois para trás, voltando a temas que já deviam estar superados e evitando assuntos que, sim, mereciam ser revisitados com mais responsabilidade, como os traumas coletivos que ainda nos perseguem: a escravidão e a ditadura militar. O apagamento tem consequências profundas na nossa sociedade.
Lembrei-me do filme O Agente Secreto, não só porque hoje esse bálsamo da arte brasileira nos representará lindamente no Oscar. Mas porque o diretor Kleber Mendonça e todo o elenco maravilhoso traz exatamente o que os poderosos tentam por décadas esconder: a memória da ditadura. E o faz com pirraça, palavra boa que os estrangeiros tiveram até dificuldade em traduzir. No fim das contas, o filme é sobre a tentativa de apagamento da nossa história, que de forma magistral ecoa além dos disfarces por meio das muitas metáforas, lugares e intimidades do meu Recife.
Se todos tivessem o talento de Kleber, talvez a nossa memória fosse cavucada sem que parecesse que estamos a escavar um túmulo e libertando fantasmas. Tenho a sensação que estamos todo dia, o tempo todo, desenterrando temas que mereciam estar mortos e enterrando oportunidades de criar soluções a partir da nossa história. Devemos respeitar o direito ao silêncio, mas nunca o silenciamento orquestrado do que realmente precisamos discutir.
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Nesta semana, o Correio recebeu o Prêmio Marielle Franco de Direitos Humanos, iniciativa do deputado distrital Fábio Felix, pelo conjunto de reportagens e iniciativas na luta contra a violência imposta às mulheres. Ficamos felizes e emocionadas com a homenagem, porque ela reflete a nossa tentativa sistemática de discutir soluções, mas também de dizer 'não' ao apagamento de mulheres sacrificadas nas mãos de assassinos. Eles merecem ser lembradas todos os dias. Esta é a nossa pirraça: o não esquecimento.
