Usada com frequência para ridicularizar o discurso mais alinhado às minorias, dessa vez, a palavra "lacração" encaixou-se perfeitamente à tentativa de protesto de uma deputada que se define como de extrema-direita, na Assembleia Legislativa de São Paulo. Fabiana Bolsonaro (PL), que pegou emprestado o sobrenome do ex-presidente sem ter qualquer parentesco com Jair, apelou para outra "fake" na semana passada, quando pintou a pele com tinta preta em um teatrinho para atacar pessoas trans.
Mas a lacração da parlamentar acabou voltando-se contra ela mesma: acordou transfóbica e dormiu racista. Para quem não acompanhou, Fabiana começou seu discurso na Alesp dizendo-se branca e privilegiada e, aos poucos, foi pintando grotescamente o rosto e os braços com tinta escura. Ela explicou a performance: "Sou branca e privilegiada, mas se me 'travestir' de preta, sou preta?".
Só que, para fazer a analogia sem pé nem cabeça, a deputada valeu-se de uma das mais execráveis ferramentas racistas, a blackface. A expressão surgiu nos Estados Unidos no século 19, quando pessoas pretas eram representadas em espetáculos de comédia por brancos pintados e maquiados com exagero. Brancos "fantasiados" de pretos, como se a cor da pele e a origem étnica fossem uma alegoria, digna de arrancar risos.
Por muito tempo, a blackface foi considerada absolutamente "normal". Para não contratar atores pretos, tingiam-se os brancos, como se fez com Lawrence Oliver, na interpretação de Otelo, de Shakespeare, na década de 1960. Pelo Brasil, a moda também pegou, com inúmeros humoristas apelando para a blackface e muita gente se "travestindo de preto" nos carnavais.
No ano passado, recuperaram um vídeo da atriz Fernanda Torres com blackface, em um quadro do programa Fantástico, de 18 anos atrás. Ela se desculpou, admitindo que a prática "nunca é aceitável". "Graças a um melhor entendimento cultural e feitos importantes, mas ainda insuficientes, de avanço nesse século, é claro hoje que em nosso país e em todo o mundo que o blackface é inaceitável", disse.
Dezoito anos nem é tanto tempo assim e, certamente, há duas décadas, pessoas pretas sentiam-se tão humilhadas quanto hoje ao servirem de máscara para humoristas. Mas, de fato, em 2026 não há desculpas para se "fantasiar de negro".
Muita gente (branca) ainda diz que é exagero, e que o objetivo não é ofender. E esse é o pior tipo de racismo — se é que existe uma escala para medi-lo —, aquele que, de tão arraigado, soa natural.
Além da lacração racista, Fabiana Bolsonaro (que não se chama Bolsonaro) deu outro tiro no pé: ao se expor, atraiu atenção. E, assim, descobriu-se que ela se declarou parda nas eleições de 2022 para usar a verba das cotas raciais. Já na performance da Alesp, se disse branca, enquanto se tingia de preto. No mínimo, uma crise identitária.
Que fique a lição para a parlamentar: um discurso de ódio não pode acabar bem. Seja ele contra pretos ou pessoas trans.
