Visão do Correio

O Brasil precisa garantir o direito de ir e vir nas estradas

O que deveria ser o sistema circulatório do país — por onde flui a riqueza, o abastecimento e o direito de ir e vir — transformou-se em estatísticas de guerra

Em 2026, o calendário nacional reserva uma série de feriados prolongados. Mas o que deveria ser motivo de animação para os brasileiros, que têm a oportunidade de realizar viagens em família ou com amigos, também causa apreensão, já que a maior parte dos deslocamentos ocorre pelas estradas. O carnaval, data que também motiva o deslocamento pelo país, já deu o tom do perigo: segundo a Polícia Rodoviária Federal (PRF), foram 1.241 acidentes, 130 mortes e 1.481 feridos nas pistas sob sua fiscalização. Em comparação com 2025, o total de sinistros aumentou 4,3%, enquanto a quantidade de óbitos subiu cerca de 53%, e a de pessoas machucadas cresceu 3,3%. Os registros graves passaram de 316 para 343, o representando alta de 8,5%. O levantamento mostra que a maioria das vítimas estava em carros e motos. E o recorte mais preocupante revela que a festa de Momo foi a mais letal da década, acendendo o alerta para as próximas celebrações do ano.

O que deveria ser o sistema circulatório do país — por onde flui a riqueza, o abastecimento e o direito de ir e vir — transformou-se em estatísticas de guerra. A precariedade da malha rodoviária é o primeiro e mais evidente vilão desse cenário. Baixo investimento, com intervenções apenas paliativas, resulta em um rastro de crateras, sinalizações inexistentes e traçados obsoletos, que não comportam o volume atual de passageiros e de cargas. Enfrentar essa realidade, porém, requer mais do que melhoria do asfalto. Exige o uso de tecnologia e uma reforma rigorosa na formação de condutores. Os dados são os sintomas de um problema complexo, e a solução depende de vontade política e da sociedade.

As falhas dos governos em oferecer uma infraestrutura minimamente segura são condenatórias, porém não se pode ignorar a cultura de imprudência profundamente enraizada no condutor brasileiro. O excesso de velocidade é tratado por muitos como uma demonstração de perícia, e não como o risco mortal que representa. Somado a isso o desrespeito às normas, o resultado é desastroso.

O impacto econômico é outra ferida aberta. De acordo com estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), com base em registros da PRF, os acidentes tiveram custo estimado de R$ 149,6 bilhões de janeiro de 2016 a julho de 2025. O valor inclui despesas médicas, perdas de produtividade e danos materiais associados às ocorrências.

Tamanha perda financeira e tanta dor de famílias, que veem seus entes saírem para passeios e não voltarem mais, pedem uma mudança profunda de paradigma. Destinar verbas públicas e dinheiro de empresas em intervenções que resolvam as demandas das estradas não são gastos; são cuidado com a preservação da vida nas rodovias. Além disso, endurecer e aplicar as penas para as infrações cometidas ao volante, dar atenção à educação e formação dos condutores e criar programas permanentes e eficientes voltados aos caminhoneiros completam a lista de ações fundamentais nesse contexto.

O desafio da segurança rodoviária no Brasil é multifatorial, portanto, exige uma abordagem em que a responsabilidade seja compartilhada e encarada como prioridade. As autoridades, os governantes e os cidadãos precisam decidir se continuarão assistindo à dor e à destruição do capital humano do país ou se assumirão o desafio de acabar com as rotas de tragédias. A omissão já custou muito. O fim do sofrimento virá com amparo técnico, determinação política e compromisso de cada motorista. Esse pacto não pode mais esperar para ser firmado. O Brasil precisa escolher ser um país que se desloca pelas estradas sem deixar marcas de sangue nas pistas.

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