ARTIGO

Comunicação de mãe para filho em tempos de guerra

Como explicar uma guerra sem ampliar o medo? Como falar de disputas geopolíticas quando a pergunta real é: o que isso significa para o nosso futuro? Não basta ser assertiva, é preciso ser honesta

Prédio bombardeado em cidade costeira do Líbano: informações chegam em tempo real às telas dos jovens  -  (crédito: Dimitar Dilkoff/AFP)
Prédio bombardeado em cidade costeira do Líbano: informações chegam em tempo real às telas dos jovens - (crédito: Dimitar Dilkoff/AFP)

Giovanna Jardimrelações Públicas e especialista em comunicação corporativa e gestão de crises

Foi durante a pandemia que uma pergunta simples ganhou um peso inesperado. Meu filho, então com 12 anos, vivia a rotina instável das aulas on-line quando um professor perguntou: "O que você quer ser quando crescer?"

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A resposta veio imediatamente: "Como eu vou saber se nem sei quais profissões vão existir depois da pandemia?" Aquilo não era dúvida. Era percepção.

A pandemia acelerou transformações que já estavam em curso. Em poucos meses, avançamos anos em digitalização, trabalho remoto e novas formas de comunicação. Desde então, a velocidade só aumentou. A inteligência artificial (IA) entrou no cotidiano, as big techs passaram ao centro do debate e, com isso, surgiram novas camadas de incerteza.

Hoje, essa incerteza ganha contornos mais duros. As guerras voltaram ao centro da vida, não como algo distante, mas como imagens e informações fragmentadas que chegam em tempo real às telas dos nossos filhos, onde quer que estejam.

É aqui que a comunicação deixa de ser técnica e passa a ser humana. Como explicar uma guerra sem ampliar o medo? Como falar de disputas geopolíticas quando a pergunta real é: o que isso significa para o nosso futuro?

Confesso: muitas vezes, eu não sei responder. Sou profissional de comunicação, trabalho com cenários de incerteza todos os dias. Mas, diante do meu filho, há um limite: não basta ser assertiva, é preciso ser honesta.

E, às vezes, a única resposta possível é um pedido de desculpas. Desculpa, meu filho, quando eu não sei te dizer o que vem a seguir. Desculpa quando as informações se contradizem mais rápido do que consigo interpretá-las. Desculpa quando tento te dar segurança, mas também estou tentando entender.

Porque, neste momento, eu não sei se há negociação real ou se estamos à beira de uma escalada. Não sei até onde vão os limites, nem quem os controla. Não sei se o risco de uma nuclearização é remoto ou iminente ou o quão rápido isso pode mudar. Não sei medir o tempo entre um discurso e uma ruptura. Consigo explicar impactos imediatos, como a pressão sobre o petróleo. Mas não sei, com a mesma precisão, como ficarão, no médio e longo prazo, os recursos naturais e as bases econômicas do mundo que você vai herdar. 

E, talvez, o mais difícil seja admitir que há perguntas suas que continuam sem resposta, não por falta de esforço, mas porque o mundo também não as tem. 

Se há algo que posso te ensinar, é que os medos são diferentes. É difícil explicar para quem vive em regiões marcadas por conflitos, como o Oriente Médio, que também convivemos com medo, ainda que de outra natureza, como a violência cotidiana. Não se trata de comparar dores, mas de reconhecer que o medo existe e precisa ser acolhido.

Crianças e jovens, em qualquer lugar, vivem hoje sob os impactos de um mundo interligado. Isso já afeta a economia, a política e, inevitavelmente, o futuro. 

Eu não tenho todas as respostas. Mas preciso que você siga resiliente. A humanidade já atravessou outros períodos de incerteza. Há algo que se repete: o desejo de sobreviver, reorganizar-se e seguir em frente. Esse impulso também está no papel de quem cuida. 

Agarre-se à fé. Não apenas à fé religiosa, que pode ser importante para muitos, mas também à fé no ser humano. Na capacidade de reconstruir, mesmo em meio ao caos. Eu espero, em pouco tempo, conseguir te dar mais certezas. Essa é, afinal, uma das minhas funções. Mas, até lá, talvez o mais importante seja isto: em tempos de guerra, mais do que respostas, o que sustenta o futuro é a forma como escolhemos preservar a esperança.

Talvez seja justamente por isso que comunicar não é explicar o mundo e, sim, sustentar a humanidade possível dentro dele.

Escrevo este texto do Oriente Médio, em meio a sirenes que anunciam possíveis ataques, entre alertas sobre drones hostis e mísseis, e uma avalanche de informações fragmentadas que chegam em tempo real pelas redes. Meu filho não está aqui comigo, mas acompanha tudo com atenção e tenta, como tantos jovens, entender o que isso significa para o seu presente e para o seu futuro.

 

  • Google Discover Icon
Por Opinião
postado em 01/04/2026 06:00
x