ARTIGO

Uma cicatriz em Goiânia

A série Emergência Radioativa reacendeu em mim difíceis lembranças. Mas, também me fez enxergar como o altruísmo e o heroísmo salvaram vidas

2017. Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Retirada de rejeitos na rua 57 do acidente com o Cesio-137. -  (crédito: Arquivo AVCésio/CB/D.A Press)
2017. Crédito: Arquivo AVCésio. Césio 137 - Goiânia. Retirada de rejeitos na rua 57 do acidente com o Cesio-137. - (crédito: Arquivo AVCésio/CB/D.A Press)

Eu tinha 11 anos e me lembro, como se fosse ontem, de quando o "bedel" — ou coordenador de disciplina — do colégio em que eu estudava entrou na sala com semblante carregado, em uma manhã de setembro de 1987, na minha cidade natal, Goiânia. "Houve um acidente muito grave aqui perto. Nenhum aluno está autorizado a deixar a escola. Aguardem seus pais aqui no pátio", afirmou. Na minha inocência de criança (ou pré-adolescente), fiquei sem entender por que diabos um "acidente grave" impediria os estudantes de saírem do prédio e de esperarem pelos pais na calçada ou em alguma das praças da proximidade. Ao chegar em casa, tive uma dimensão do que havia ocorrido. Uma cápsula de chumbo com césio-137 tinha sido aberta a poucos quarteirões da escola.

Algumas memórias daqueles tempos me marcaram. Lembro-me de passar em frente ao Estádio Olímpico e ver uma fila imensa de gente posicionada diante de homens que pareciam astronautas segurando cintilômetros e contadores Geiger-Müller, enquanto "escaneavam" os corpos das pessoas. Também recordo-me do tempo em que eu e meu irmão gêmeo ficamos reclusos, em casa, acompanhando o noticiário pela televisão. As imagens dos tambores e contêineres em ruas que eram praticamente desmontadas a olhos vistos. Tudo aquilo virava lixo radioativo, enquanto os técnicos em energia nuclear monitoravam o vaivém das escavadeiras.

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As cenas das vítimas mais graves sendo levadas para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. O desespero de Devair Alves Ferreira, dono do ferro-velho que levou o césio-137 para casa e mostrou a luz azul brilhante para a família — o olhar vazio, de medo e dor, a partir da janela do Hospital Geral de Goiânia. Depois, o encontro de Devair com a atriz global Betty Faria, que deu uma lição de solidariedade e viajou à capital goiana para atender a um sonho do fã. As outras mortes e os sepultamentos no Cemitério Parque, sob os gritos e a revolta de pessoas tomadas pelo preconceito e pelo medo.

Quando me recordo daquele tempo, associo o álbum Help!, do The Beatles, à tragédia. Talvez porque escutasse as faixas com frequência, especialmente a música Ticket to Ride. Também marcou-me uma canção feita por Moacyr Franco em homenagem a Goiânia, que sofria todo tipo de discriminação. Virou campanha de conscientização pública e era veiculada sempre antes do Jornal Nacional. Tudo em meio às histórias de carros apedrejados em cidades do litoral, pelo simples fato de terem sido emplacados na capital de Goiás.

A série Emergência Radioativa, da Netflix, reacendeu em mim difíceis lembranças. Mas, também me fez enxergar como o altruísmo e o heroísmo de físicos nucleares, bombeiros, policiais, médicos e enfermeiros salvaram vidas. Faço duas ressalvas: o local de gravação, por direito e fidelidade histórica, deveria ter sido Goiânia. E os nomes e depoimentos das vítimas tinham que ser preservados. Que tragédia similar, causada pelo desleixo de empresários e autoridades, nunca mais se repita.

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postado em 01/04/2026 06:00
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