
» DANIEL A. DE AZEVEDO Professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)
Muitos livros e artigos foram produzidos em busca de explicar por que países são mais ricos que outros. São reflexões históricas profundas, de autores que divergem entre si sobre visões de mundo e que, muitas vezes, não concordam sequer com o caminho a ser trilhado. No entanto, a grande maioria converge no desejo de fortalecer as liberdades e promover prosperidades. Uma dessas correntes acredita que o principal caminho é por meio das instituições. Seu famoso lema é "as instituições importam".
No uso corriqueiro da língua, a palavra "instituição" costuma evocar imagens de prédios imponentes ou entidades burocráticas. Falamos rotineiramente de instituições de ensino, financeiras ou de caridade. No entanto, essa definição é limitada e imprecisa. Se a sociedade fosse um jogo de futebol, as instituições seriam as regras — o impedimento, a proibição do uso das mãos ou a duração da partida, as "regras do jogo". As organizações seriam os clubes, os jogadores e a torcida, aqueles que vivem, constroem e contestam as instituições.
Porém, há um detalhe que esse debate por vezes esquece: não basta ter regras virtuosas (ou "instituições inclusivas", como diriam James Robinson e Daron Acemoglu). A sociedade precisa confiar nelas. E é aqui que reside o nosso grande problema. Corrupção, ineficiência de políticas públicas e violência são, simultaneamente, causa e consequência da desconfiança generalizada da sociedade em suas instituições. Como romper esse ciclo vicioso, no qual as regras do jogo são desenhadas justamente para perpetuar abismos sociais em um país que já ostenta uma das maiores desigualdades do mundo?
No Brasil, esse ceticismo é uma patologia exposta. A desconfiança nas polícias, no Legislativo, no Executivo e o descrédito nos partidos políticos ganharam um novo capítulo: segundo pesquisa Datafolha de 12 de março de 2026, o índice de desconfiança dos brasileiros sobre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Poder Judiciário atingiu o seu maior patamar na série histórica. Essa descrença não brota no vácuo; ela é alimentada diariamente pela percepção de que o Estado opera em dois sistemas paralelos. De um lado, a regra para o cidadão comum; de outro, a captura da estrutura pública para a extração de benefícios privados por certos grupos.
A recente movimentação para derrubar os chamados "penduricalhos" do serviço público surge nesse contexto de crise. Coisas grotescas como o "auxílio-peru" — apelido cínico para zombar, em um misto de riso e desespero, do pomposo "auxílio-natalino" — fazem o teto constitucional parecer uma ficção. Esses artifícios ajudam a produzir uma sociedade que olha para as instituições e tem a certeza de que as regras sociais beneficiam apenas um grupo. Enquanto o Brasil real sobrevive com um salário mínimo de R$ 1.612, e metade da população vive com menos de R$ 600 por mês, ver contracheques que ultrapassam os R$ 100.000 no topo da pirâmide é um tapa na face da coesão social. A situação é ainda mais assustadora quando esse contracheque é de membro do próprio Estado. Poucos às custas de muitos.
- Leia também: As idas e vindas dos direitos humanos
Esse cenário é um exemplo nítido de como o público e o privado se sobrepõem no Brasil. Mais do que uma solução definitiva, a decisão recente do STF serviu apenas para levantar a poeira de uma questão que não pode mais ser esquecida e que é apenas um dos flancos abertos em um Judiciário cercado por denúncias e escândalos nos últimos meses.
É nesse cenário de terra arrasada da confiança que a polarização política, fenômeno mais do que conhecido em nossos dias, encontra solo fértil. A fratura social brasileira não é apenas ideológica, ela é alimentada pelo ressentimento. O descrédito nas instituições abre uma avenida larga para os "salvadores da pátria".
A descrença institucional é a estrada mais rápida para o populismo. Quando as pessoas deixam de acreditar no árbitro e nas regras, elas passam a desejar alguém que prometa "quebrar o sistema", mesmo que isso custe a própria democracia. No vácuo deixado por instituições que se tornaram reféns de privilégios corporativos, o populista surge não como uma solução, mas como um sintoma da nossa incapacidade de jogar limpo.
Democracia pressupõe assegurar que não haja concentração de poder e que as regras do jogo sejam legítimas para o convívio entre os diferentes. Se não resgatarmos a confiança por meio de um Estado que respeite o seu próprio teto, continuaremos sendo uma sociedade que olha para as próximas eleições não como uma disputa entre adversários, mas como uma guerra onde o outro é um inimigo a ser derrotado, expurgado e silenciado.

Opinião
Opinião
Opinião