
Dorgil Silva — jornalista, foi programador de computadores, servidor do STJ, do Senado Federal e da Câmara dos Deputados; Maria José Maninha — foi presidente do Sindicato dos Médicos, deputada distrital e federal e secretária de Saúde. É presidente da Asaaraui, ação de solidariedade ao povo Saaraui
Na era da inteligência artificial (IA), esperamos a intensificação da busca da verdade. Impõem-se, no entanto, até agora, dificuldades para a verificação de fatos, prejudicando informações e correção de argumentos.
A ausência de efetivo controle popular, social e, consequentemente, institucional, permite a um número reduzidíssimo de pessoas controle quase absoluto do que circula socialmente com o uso da internet.
É notório que milhões produzem e lançam nas redes conteúdos informativos coerentes com teorias legitimadas. Divulgam ciência e organizam-se, democratica e respeitosamente, pessoas e grupos que difundem ideias, como a distribuição de riquezas e a solidariedade aos infortunados e desprotegidos por relações perversas, violadoras — sejam internacionais, sociais, entre classes ou entre pessoas.
Os algoritmos utilizados para calcular o que é mais acessado, assim como os conteúdos mais frequentemente apoiados, potencializam a divulgação de algumas produções em detrimento de outras. Como expressões matemáticas, os algoritmos captam mais, porque em maior número as desinformações são lançadas por milhares de exércitos patrocinados e monetarizados, apoiadas na lógica gerencial das Big Techs (maiores empresas de tecnologia do mundo).
Além de robôs, há "generalatos influencers", bem pagos, comandando milhões de soldados, seguidores sem soldo. Sob falso conceito de liberdade, indignam valores construídos pela humanidade, sedimentados no direito constitucional, no direito internacional, como os de soberania e liberdade.
Vejam o caso, hoje "invisível", do Saara Ocidental. É a última colônia na África. A ONU reconhece o país como pendente de descolonização. A Corte Internacional de Haia e o Tribunal de Justiça da União Europeia já sentenciaram que o país colonizador, Marrocos, em nenhum momento da história exerceu soberania no território do Saara Ocidental, que inclui as riquezas do deserto até o mar.
Apesar disso, ao longo de 50 anos de invasão e colonização marroquina — e de resistência resiliente do povo saaraui —, os meios de comunicação, inclusive redes sociais, veiculam qualquer manifestação do Reino do Marrocos, enquanto desconhecem as denúncias de violação, de torturas prisionais e da existência de um muro de mais de 2.740 km com milhões de minas explosivas que impede as pessoas do Saara Ocidental de viverem juntas em seu território. Silêncio quase absoluto.
Hoje, a República Saaraui tem cinco estados, três governados por mulheres, que detêm 42% das cadeiras do parlamento. É uma das Repúblicas com maior índice de participação feminina no mundo, na política, no ambiente institucional, social e nos postos de trabalho, educação, saúde, e participam de ações militares de defesa do seu povo. Respeito radical às mulheres em um povo muçulmano, milenar.
Lá no Saara Ocidental, na parte liberta, assim como nos acampamentos de refugiados, o feminicídio é zero, não há violência doméstica, 100% das crianças estão na escola. São fatos de interesse jornalístico, sociológico, político, no mínimo surpreendentes.
Tudo isso não se dá a conhecer. Em lugar, factoides prevalecem sobre o Saara Ocidental, impulsionados pela ação propagandística de Marrocos. Até decisões do Conselho de Segurança da ONU são divulgadas com significado falso por altas autoridades marroquinas. As "fakes" versões são publicadas, quase todas as matérias sem quaisquer contraposições ou esclarecimentos. Os saarauis não são ouvidos. É importante repudiar a desinformação, lançar luz forte, como o sol do deserto, sobre toda e qualquer verdade.
O jornalista Hélio Doyle e o historiador Sayid Tenório estiveram nos acampamentos de refugiados saarauis, situados em Tindouf, na fronteira da Argélia. Em 9 de abril, no Teatro dos Bancários, eles lançam juntos livros que trazem luz sobre o drama no Deserto do Saara. Isso ocorre em Ato de comemoração dos 50 anos da República Saaraui, que começa às 19 horas com o Grupo musical Accordi.
Quem também esteve nos acampamentos foi o prestigiado ator espanhol Javier Bardem. Ele produziu o filme Hijos de las nubes, sobre o Saara Ocidental. O documentário venceu o prêmio Goya de cinema em 2013, mas será exibido pela primeira vez no Brasil na mesma noite de 9 de abril, no Teatro dos Bancários. No Foyer, além de exposição de fotos, haverá uma tenda típica saaraui, a jaima.
É uma oportunidade de driblar a lógica dos algoritmos, obter boa informação e saborear um coquetel de conhecimento cultural. Um ato de respeito radical à autodeterminação dos povos, à cooperação e à solidariedade.
Saiba Mais

Opinião
Opinião
Opinião