
Com o despertar do Brasil para o desafio do combate à violência contra a mulher, vemos no país uma mobilização nacional, que envolve Estado, entidades, movimentos sociais, meios de comunicação, população em geral. O enfrentamento tem se dado com leis, políticas públicas, campanhas massivas de conscientização, debates, manifestações nas ruas. O número de feminicídio e de outras violências de gênero ainda é alarmante, sim, mas estamos na peleja para transformar essa realidade.
Como mulher, como ser humano, saúdo imensamente esse despertar, claro, mas fico me perguntando quando faremos o mesmo em relação à segurança de outro grupo vulnerável — na verdade, o mais carente de proteção entre todos, o de crianças e adolescentes. A violência contra eles é uma chaga neste país, porém está a anos-luz de ser tratada com o rigor e a urgência que a gravidade exige.
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Cito aqui casos que aconteceram há poucos dias. No Rio de Janeiro, uma bebê de 1 ano e 9 meses morreu espancada pelo padrasto. Também no estado, uma criança de 1 ano e 4 meses, agredida pela mãe e pelo companheiro dela, sofreu traumatismo craniano e está internada com quadro grave. Em São Paulo, uma recém-nascida foi surrada pela mãe; e uma outra criança, de 11 meses, não sobreviveu à violência praticada pela mãe e pelo padrasto. Aqui no DF, duas crianças, de 8 e 12 anos, eram frequentemente agredidas pelo pai com fios, cipós e tábuas, além de serem submetidas a castigos degradantes e serem ameaçadas de morte. Em Minas, uma menina, de apenas 39 dias, foi morta por asfixia pela mãe. No Amazonas, uma garotinha de 10 anos denunciou, por meio de desenhos, que era rotineiramente estuprada pelo pai.
Há uma proliferação de crimes de extrema violência assim contra crianças e adolescentes. Uma epidemia no país. Tratamento cruel, torturas, estupros, homicídios. Um horror que ocorre, principalmente, dentro da própria casa da vítima.
O Atlas da Violência, divulgado no ano passado, mostrou que, a cada hora, 13 crianças e adolescentes sofreram algum tipo de violência em 2023. Uma série de outros levantamentos mostra que meninas e meninos são sempre as principais vítimas de todo tipo de abuso.
Mesmo diante do panorama aterrador, o país segue negligenciando a segurança da sua população mais vulnerável. Até quando esse sofrimento ficará sob o manto da invisibilidade? É urgente despertarmos — como fizemos em relação à violência de gênero — para o dever de proteção integral de crianças e adolescentes. E tem de ser imediatamente, com ações efetivas e coordenadas; campanhas massivas de conscientização, políticas públicas de prevenção à violência. Tem de ser um esforço conjunto, de Estado, família e sociedade, para o enfrentamento dessa realidade brutal.
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