ARTIGO

A representatividade negra na literatura infantil já não basta

Ter pele negra numa ilustração não significa ter uma literatura comprometida com a expansão da infância negra como continuidade histórica, cultural, ancestral e humana

Criança negra procura livros -  (crédito: Agência Brasil )
Criança negra procura livros - (crédito: Agência Brasil )

Dlaman Kobina escritor, professor na rede pública do DF e estudioso de história e cultura africana e de educação afrocêntrica

Quantos livros infantis com personagens negros você leu durante a sua vida? A resposta depende do tempo em que cada pessoa cresceu, dos espaços que frequentou, dos livros a que teve acesso e do tipo de mediação que recebeu. Para muita gente negra no Brasil, a resposta continua sendo: poucos. Por isso, o aumento da presença de personagens negros na literatura infantil foi recebido como conquista. Isso é resultado da luta do Movimento Negro e da insistência de quem se recusou a aceitar que crianças negras continuassem invisíveis.

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É preciso dizer com nitidez que isso já não basta. Muitas pessoas parecem satisfeitas com a simples presença de corpos negros nas capas e nas ilustrações: a aclamada "representatividade". Como se o problema central estivesse resolvido porque agora existem mais listas temáticas e mais indicações de "livros com personagens negros". Só que nem todo livro com personagem negro fortalece crianças negras. Em muitos casos, o que houve foi apenas a atualização do mesmo racismo de antes: sai o apagamento explícito, entra uma inclusão superficial, às vezes acompanhada de estereótipos renovados e de oportunismo mercadológico branco.

Quando dizemos que a representatividade, como operada na literatura infantil, já não basta, estamos dizendo que pode ter sido uma etapa, mas não é um horizonte suficiente. Aparecer não é o mesmo que ter centralidade. Ser "colocado" não é ser valorizado. Ter pele negra numa ilustração não significa ter uma literatura comprometida com a expansão da infância negra como continuidade histórica, cultural, ancestral e humana.

Pessoas negras se preocuparam com o fazer narrativo voltado às crianças de suas comunidades há muito tempo, desde África. Isso aparece na oralidade, em tradições letradas e em tecnologias negras de permanência da memória. A ideia de que nossa relação com literatura e leitura começou apenas quando fomos admitidos nas margens do cânone ocidental é falsa.

Mas o debate educacional e o mercado literário muitas vezes reduzem a literatura voltada às infâncias negras a denúncia do racismo e à correção moral de leitores brancos. Quando editoras, curadores/es, bibliotecários/as, famílias e professoras/es só reconhecem valor em livros que falam de dor, preconceito ou "antirracismo", continuam aprisionando a experiência negra. A criança negra aparece comprimida: como vítima, como problema social ou como instrumento pedagógico para ensinar o outro.

Em casos mais graves, ainda encontramos representação estereotipada, cabelo crespo como defeito, branco como salvador, exotização de África e até mentiras históricas. A presença de personagens negros, em alguns casos, aprofunda o dano simbólico. Mas muitos livros assim ainda constam da lista de mais vendidos. E não estamos falando apenas de livros antigos. Fruto de denúncia deste autor, um livro infantil publicado em 2025 romantizando o tráfico negreiro foi retirado de circulação após pressão nas redes sociais.

Não basta ter personagem negro; é preciso ter critério. Precisamos observar, no mínimo, seis dimensões ao analisar literatura com foco em agência negra: literatura como episteme, localização narrativa, política da imagem, estética literária, cosmopercepção fundante e potência pedagógica. Essas dimensões ajudam a perceber que lugar a narrativa atribui à criança negra e quais repertórios ela legitima como conhecimento, beleza e futuro.

Na prática, isso significa perguntar se o livro sustenta ancestralidade, continuidade histórica e comunidade; se dá interioridade real à criança negra; se as imagens não embranquecem nem caricaturam; e se há projeto estético e literário, e não apenas tema.

Isso muda o debate. Porque deixamos de perguntar apenas se o livro "fala de racismo", o que tem se tornado comum com a esvaziada onda de "educação antirracista" contemporânea, e passamos a perguntar que tipo de mundo ele constrói para a criança negra. Nesse ponto, o trabalho de escritoras e escritores negros e de editoras independentes comprometidas com a literatura negra precisa ser levado muito mais a sério.

A representatividade pode até ter sido necessária. Mas, sozinha, ela já não basta. O que está em jogo agora é a passagem da visibilidade para a profundidade. Porque não é suficiente que a criança negra se veja. É preciso que ela se localize, se reconheça como continuidade histórica, encontre beleza, inteligência, memória, imaginação e agência. É nesse ponto que começa a responsabilidade crítica com a expansão literária voltada às infâncias negras.

 

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Por Opinião
postado em 11/04/2026 06:00
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