
Isvilaine da Silva Conceição — engenheira ambiental e coordenadora de Engajamento e Mobilização do Observatório do Clima; Priscila Pacheco — repórter do Observatório do Clima e co-fundadora da Mural – Agência de Jornalismo das Periferias
Os efeitos das mudanças climáticas, frequentemente percebidos como um problema distante, manifestam-se de forma desigual e impactam de forma desproporcional mulheres, pessoas negras e populações de baixa renda. Quando o evento extremo "entra pela porta", seja como calor intenso, seca prolongada ou chuvas torrenciais, ele amplifica desigualdades sociais já existentes, porque atinge em cheio áreas de risco e comunidades com menor acesso à proteção. Esse é o cerne da justiça climática, uma pauta humanitária que exige ações imediatas e inclusivas.
Para compreender a urgência, basta observar o que ocorre no presente. Enchentes recentes em Juiz de Fora, em Minas Gerais, e em regiões do Paraná tornam visível uma realidade que, para muita gente, já é cotidiana: quem vive em áreas em vulnerabilidade costuma ser o primeiro a perder casa, renda e segurança. A vida é abruptamente desestruturada com ausência de abrigo, sustento e estabilidade.
A análise da crise climática sob os recortes de gênero, raça e renda reforça esse cenário. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que 80% das pessoas deslocadas por desastres climáticos são mulheres, e que um aumento de 3°C na temperatura global pode levar mais de 158 milhões de mulheres e meninas à pobreza até 2050. Isso mostra como as mudanças climáticas são um catalisador de desigualdades, especialmente em territórios periféricos, onde a ausência de políticas públicas e as limitações econômicas já produzem vulnerabilidades, sobretudo para mulheres negras.
Ao mesmo tempo, o cotidiano de trabalhadores de todo o mundo também é impactado. Um relatório de 2024 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) aponta que 2,4 bilhões de trabalhadores, o equivalente a 70,5% da força de trabalho mundial, estão expostos a riscos climáticos diretos e indiretos.
Isso se reflete em problemas como calor excessivo, responsável por 22,8 milhões de lesões anuais em trabalhadores; radiação ultravioleta, que contribui para mais de 18,9 mil mortes anuais por câncer de pele; poluição do ar, que causa a morte de mais de 860 mil trabalhadores por ano; e doenças transmitidas por vetores, como malária e dengue, responsáveis por mais de 15,1 mil mortes anuais de trabalhadores.
Além dos impactos físicos, a saúde mental é uma dimensão frequentemente negligenciada. Profissionais de saúde e pessoas envolvidas em situações de emergência e na recuperação de desastres apresentam maior suscetibilidade a transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), ansiedade e depressão.
A desigualdade também se expressa no acesso à água, um direito humano fundamental. Cerca de 2,1 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável segura, e mulheres e meninas são as mais afetadas, muitas vezes por serem as responsáveis pela coleta e gestão desse recurso. Quando os serviços falham, essa sobrecarga transforma-se em risco. Em eventos extremos, o que é chamado de "desastre" pode expor mulheres a assédio e violência, inclusive em abrigos, o que reforça a necessidade de proteção integral nas respostas climáticas.
Para colocar a justiça climática em prática e corrigir a distribuição desigual de ônus e bônus ambientais, é fundamental priorizar quem vive perto do risco para que tenha acesso a abrigo, saúde e reconstrução. No entanto, a adaptação às mudanças climáticas não pode ser pensada apenas em termos de infraestrutura.
Essa adaptação deve integrar saúde e segurança no trabalho, envolver a participação pública e o acesso à informação e à educação climática. Isso significa que as políticas têm de ser desenhadas com base nas realidades de quem é mais afetado, especialmente mulheres e populações negras, de modo a garantir que as decisões reflitam suas reais necessidades.
Considerando que a adaptação raramente gera retorno financeiro, ela deve ser assumida como responsabilidade primária e central dos governos. É essencial que as políticas públicas existentes, como as de moradia e saneamento, incorporem o risco climático, evitando reconstruções em áreas vulneráveis e priorizando populações historicamente marginalizadas.
Para tornar o tema mais acessível e aplicável a diferentes contextos, plataformas como a Eunice, do Observatório do Clima, oferecem conteúdos científicos em linguagem clara e visual. A iniciativa, que homenageia a cientista pioneira Eunice Foote (1819-1888), conecta causas e consequências da crise climática, prepara educadores, amplia a participação informada e quebra o elitismo do debate.
A justiça climática precisa ser tratada como uma matriz humanitária, o que exige participação, garantia de direitos, segurança e políticas públicas que cheguem primeiro - e logo - a quem mais precisa delas.

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