
Frederico de Holanda — arquiteto, PhD, professor emérito da Universidade de Brasília, pesquisador colaborador sênior da mesma universidade
Não. Não, porque há 66 anos — 1960 — milhares de candangos já haviam chegado desde 1957; não, porque antes deles havia uma população rural e pequenos núcleos urbanos há séculos; não, porque antes deles havia os povos originários da região. Portanto, "Brasília", como assentamento humano, existia há milênios. "Brasília" é milenar. E, não, por muito mais.
No entanto, não focarei no arquipélago de núcleos urbanos que hoje beira os 5 milhões de habitantes, mas naquele "avião" que aqui pousou, à beira de um futuro lago artificial, e que se somou às preexistências: o "Plano Piloto" de Lucio Costa. Pois é ele que foi "inaugurado" 66 anos de atrás, algo mais simbólico que real, pois uma cidade não se inaugura, nasce e cresce a partir do primeiro ser humano que nela finca o pé. É ao Plano Piloto que vou me referir, não a "Brasília".
Por que a celebração? Porque o novo adendo tem características peculiares: foi um pedaço de cidade pensado de uma vez, diverso do que havia antes, no processo incremental de produção e na sua forma, neste território, em outras partes do país, em outras partes do mundo. No discurso acadêmico ou no do senso comum, era "arquitetura moderna", que supostamente virava do avesso o que entendíamos como cidade.
Mas em que virava? Ou quão virava? O redondo "não" lá em cima foca no que o Plano contrariava a tendência moderna, contradizendo o que dela abraçava.
Pense nas superquadras do Plano ocupadas por um único edifício de 16 pavimentos (unités d'habitación), distante dos vizinhos similares em uns 200 metros (a julgar pelos croquis), onde o comércio local ficava trepado no oitavo pavimento (acreditem) e onde os equipamentos de lazer e escolares eram jogados na cobertura (acreditem), esvaziando de vida todo o resto do chão. Assim era a "cidade" moderna proposta por Le Corbusier, que detestava a rua ("o mofo que rói as calçadas"). Os 11 blocos residenciais de seis pavimentos das superquadras do Plano, os equipamentos escolares e de lazer no chão, as ruazinhas dos comércios locais... Não, o Plano não é moderno.
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Pense em morar em torres residenciais de 300 metros de altura (cerca de 100 pavimentos), separadas por grandes distâncias, sem, de novo, espaços configurados entre elas, nos quais as pessoas se reunissem, novamente, no chão. Essa era a cidade moderna proposta por de Rino Levi, não a realidade do Plano, em sua ocupação residencial contínua formando as Asas Sul e Norte, facultando às pessoas falarem dos apartamentos para o chão, e até entre os blocos próximos. Não, o Plano não é moderno.
Pense em morar numa cidade repetitiva, composta por bairros residenciais circulares (ou octogonais, pouco importa), separados por terra de ninguém, onde comércio, escolas, lazer estão escondidos no centro desses círculos e não em sua periferia, e serem visíveis e acessíveis para o cidadão em geral (como os comércios locais do Plano). E, nessa "cidade", nada se destaca do resto, pelo tamanho ou pela forma dos espaços e dos prédios: nada há que se imprima indelevelmente em nossa mente. Essa é a cidade proposta pelos irmãos M.M.M. Roberto, típica dos arquitetos modernos que igualavam o "monumental" ao "estalinismo". Ao contrário, o Plano tem a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes. Lucio Costa, de novo, rema contra a corrente. Não, o Plano não é moderno.
Mas, afinal, e o "rodoviarismo", que privilegia o carro em detrimento dos pedestres, obrigados a se arriscar na superfície, ante bólidos a 80km/h, ou a utilizar passagens subterrâneas desconfortáveis, infectas e inseguras? E o "zoneamento", que elimina habitação de zonas centrais, fazendo-as vivas nos horários comerciais, mas mortas à noite, aos domingos e feriados? "Entrou por uma perna de pato, saiu por uma perna de pinto; quem quiser que conte cinco". Quem quiser que escolha o "sim" em vez do "não" inicial — e conte outra história.
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