
Escrevo este artigo na madrugada de 21 de abril, pouco antes do raiar do 66º aniversário de Brasília. A capital do Brasil é terra capital de esperança. É mãe que agasalha, nutre e aconchega. Quem chega aqui, alonga a vista no horizonte e expande os próprios horizontes. Brasília é força e recomeço em si mesma: as curvas sinuosas de seus palácios e monumentos dividem espaço com as linhas ousadas e repletas de uma genialidade que venceu o tempo. Oscar Niemeyer partiu há quase 14 anos, mas se imortalizou em um legado que atravessará gerações. Brasília também é celeiro de todas as fés, onde a espiritualidade aflora com a convicção de que pode conviver com todos os credos e religiões. Não à toa, a cidade nasceu do sonho de Dom Bosco, em 30 de agosto de 1833 — a terra que jorraria leite e mel. Como se uma centelha de inspiração divina traçasse o destino da uma nova metrópole.
Hoje, Brasília é jovem senhora autêntica. Dona de termos únicos, que moldam sua personalidade. Das superquadras às tesourinhas, do Eixão aos eixinhos, dos pilotis sustentando sonhos, da magia do Cerrado aliada à renitência do concreto. Daqui a pouco, olharei pela janela e escutarei aquele casal de araras que cruza o céu toda manhã. Também escutarei a sinfonia de passarinhos que, às vezes, subverte o espaço e transforma a cidade em um grande bosque. Ao caminhar pelas calçadas do Plano Piloto, à sombra das árvores, talvez cruze com borboletas. Ao entardecer, na Ermida Dom Bosco, será o momento de repousar os olhos sobre o Lago Paranoá e aguardar o sol tingir o espelho d'água de dourado, até dar lugar ao brilho intenso do luar.
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Brasília também é contradição. Da força do poder, da sofisticação dos gabinetes de engravatados ao concreto duro e frio onde se dorme, no chão da Esplanada dos Ministérios, sob viadutos ou o sob o vão da Blblioteca Nacional. Dos carros elétricos de última geração ao vaivém constante na rodoviária de pessoas de todas as classes sociais ou condições econômicas. Gente que enfrenta horas dentro do ônibus lotado para batalhar pelo sustento, enquanto se sustenta no sonho de um futuro de paz e de prosperidade.
A terra de Dom Bosco, testemunho da coragem e da ousadia de Juscelino Kubitschek, Niemeyer e do urbanista Lucio Costa, é a prova cabal de que sonhos tornam-se reais quando impulsionados pelo desejo. É impossível não se apaixonar pela amplidão e pelo céu-mar azul da capital. Aliás, o céu de Brasília é poesia por si, rima sem métrica, verso no universo de uma inspiração quase que divina.
Minha relação com a capital começou ainda na infância. Nasci em Goiânia e, quando criança, vinha à cidade visitar minha tia-avó Olga Bastos, acompanhado de meu pai, meu irmão gêmeo e minha avó. Em 2005, troquei minha terra natal por Brasília. Aqui me divorciei, casei novamente e fui presentado com o nascimento do meu filho, autêntico brasiliense. Brasília me ensina todos os dias: a ser grato por uma mãe tão generosa e acolhedora.

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