ARTIGO

A guardiã da Serra da Mesa

Temos como ajudar a Poeta da Serra da Mesa. Se cada um que tomar conhecimento da sua obra, doar um pouquinho, será possível manter esse lindo trabalho

Por onde passou, a leitura foi seu refúgio e companhia -  (crédito: Caio Gomez)
Por onde passou, a leitura foi seu refúgio e companhia - (crédito: Caio Gomez)
Laerte Rimoli, jornalista    

O Universo cabe numa nesga de terra de 7 mil m² que se debruça sobre uma lagoa? Sim, se no espaço morar uma guardiã dos elementais. Alguém que respeite terra, água, fogo e ar. Uma entidade que paire sobre o espelho d'água, domine a linguagem dos bichos, entenda os recados dos ventos e interprete o baloiçar das folhas da mata. Uma casa simples, apenas para cobrir a cabeça das intempéries, uma singela canoa, que singre nas águas represadas do majestoso Rio Tocantins, a Toca Vó Quirina. "Eu vou, mas ficarei. Se sentires saudade, saiba que não te deixarei", doçura escrita por Sinvaline Pinheiro, poeta de Uruaçu no Goiás profundo, 280km ao norte de Brasília. A antítese de toda a violência que hoje permeia o mundo.

Mãe aos 14 anos, enxotada da terra onde nasceu. Sofreu na pele toda sorte de discriminação. Encurralada, a fome dos três filhos empurrou-a para os becos escuros das ruas. Por onde passou, a leitura foi seu refúgio e companhia. Livros da estante da patroa italiana, outros pegos em sebos ou abandonados no lixo. Ensinou vó Quirina — a grande inspiração da vida, a ler. A mãe, dona Nena, apenas aprendeu a desenhar o nome. Dedicou seu livro Vem, ainda há poesia aos fiéis que não sabiam ler e seguravam a Bíblia de cabeça para baixo; às prostitutas dos becos, sofredoras, ébrias e sábias que me fizeram conhecer a fraqueza e a força das mulheres; aos bichos silvestres e domésticos, principalmente o tamanduá-bandeira Andrezinho, que transmitiram a linguagem dos animais e aos indígenas, mestres do mato, "sábios que souberam me contar os segredos do universo através do olhar".

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Pois essa também sábia mulher agora é doutora "honoris causa", pela Universidade Estadual de Goiás (UEG). Hordas de jovens chegam à Toca Vó Quirina para beber do seu conhecimento. Alunos de extensão, de escolas públicas. Aulas sobre terra, ar e água. A poesia que jorra numa simples conversa. Sinvaline, e você recebe por isso? Como, são escolas pobres, cada um traz o que pode para me ajudar. Mas temos como ajudar a Poeta da Serra da Mesa. Se cada um que tomar conhecimento da sua obra, doar um pouquinho, será possível manter esse lindo trabalho. Pilar fundamental da tradição e ancestralidade, o conhecimento oral — operando no sistema "boca ouvido". Transforma experiências em sabedoria, transmite valores éticos, costumes, técnicas de trabalho e histórias familiares que moldam a identidade e a personalidade, fortalecendo vínculos. Bora ajudar a poeta, bora fazer nossa parte. Uma gota d'água na lagoa.

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Por Opinião
postado em 26/04/2026 16:38 / atualizado em 26/04/2026 16:47
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