Visão do Correio

Desafios institucionais da campanha eleitoral

As eleições de 2026 se configuram como mais um teste de estresse para a democracia brasileira

Com a desincompatibilização dos candidatos, entre os quais governadores como Ronaldo Caiado (PSD-GO), Ibaneis Rocha (MDB-DF) e Romeu Zema (Novo-MG), prefeitos, ministros e outros ocupantes de cargos públicos que desejam disputar as eleições, a campanha eleitoral de 2026 deu um passo decisivo. De agora em diante, a movimentação política dos partidos e seus candidatos estará diante de desafios qualitativamente novos.

O primeiro desses desafios é a consolidação das fake news como instrumentos recorrentes e largamente utilizados na disputa política, o que não é permitido na campanha eleitoral. Não se trata mais de episódios isolados de desinformação, mas de grandes operações digitais capazes de moldar percepções coletivas em tempo real. A disseminação de conteúdos falsos ou distorcidos, impulsionados por redes sociais e aplicativos de mensagens, cria uma realidade paralela que, muitas vezes, se sobrepõe aos fatos.

A isso se soma o uso indiscriminado de inteligência artificial, que inaugura uma nova etapa da manipulação política. Ferramentas capazes de produzir vídeos hiper-realistas, áudios sintéticos e textos automatizados ampliam exponencialmente a capacidade de enganar o eleitor. Os "deepfakes" — imagens ou falas fabricadas com alto grau de verossimilhança — representam um risco concreto à integridade do processo eleitoral. A velocidade de produção e disseminação desses conteúdos supera a capacidade de resposta das instituições e cria um descompasso perigoso entre tecnologia e regulação. Esse recurso foi largamente utilizado nas eleições indianas, em que os candidatos apareciam falando todos os dialetos locais sobre seus problemas específicos.

Outro fator crítico é o velho caixa dois eleitoral e sua possível ampliação com o desvio de recursos públicos provenientes de emendas parlamentares, que atingiram um patamar inédito. Apesar dos avanços institucionais no controle do financiamento público eleitoral, criado exatamente para evitar o recurso ao caixa dois e antigas formas de financiamento privado, muito suscetíveis à corrupção, há sinais de que recursos não contabilizados continuam a irrigar campanhas, especialmente por meio de estruturas paralelas e financiamento indireto via redes digitais.

Paralelamente, essa blindagem dos detentores de mandato por meio das emendas ao orçamento introduz uma assimetria relevante no processo eleitoral. O uso intensivo de emendas parlamentares — muitas vezes com baixa transparência e alto grau de discricionariedade — permite a construção de "currais eleitorais" a partir da distribuição de recursos públicos, uma recidiva do "voto de cabresto" da República Velha.

O abuso de poder econômico tende a ser ainda mais sofisticado. Não se limita mais à propaganda tradicional ou ao financiamento direto de campanhas, mas se manifesta, também, no domínio dos meios digitais, na contratação de influenciadores, no impulsionamento massivo de conteúdos e na utilização de estruturas empresariais para moldar narrativas.

Por fim, a incidência de fatores externos no processo eleitoral brasileiro alcança uma escala inédita. Conflitos geopolíticos, como a guerra no Oriente Médio, pressões econômicas internacionais e até mesmo a atuação de plataformas globais de tecnologia pautam o ambiente político interno. É o caso da Guerra do Irã, porque a oscilação dos preços do petróleo, por exemplo, impacta a inflação e o custo de vida, elementos centrais na avaliação do eleitorado. Ao mesmo tempo, decisões de governos estrangeiros podem ser instrumentalizadas no debate doméstico. O caso das pressões dos EUA contra a existência do Pix também é ilustrativo.

As eleições de 2026 se configuram como mais um teste de estresse para a democracia brasileira. A inovação tecnológica e nossas fragilidades institucionais às pressões externas criam um cenário fora de controle da Justiça Eleitoral. Por essa razão, a lisura do processo dependerá não apenas das regras formais, mas da capacidade efetiva de fiscalização, regulação e, sobretudo, da maturidade política da sociedade.

 


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