A medicina da era da inteligência artificial (IA) vive um momento sem precedentes. Cirurgias robóticas com precisão milimétrica, diagnósticos emitidos pela internet em alguns segundos e possibilidades sem número transformaram o que antes era enredo de filmes de ficção científica em rotina para as pessoas e os profissionais de saúde. No entanto, junto de tantos avanços positivos na área vêm questionamentos importantes. Um dos mais preocupantes diz respeito à eficiência do que é apresentado na tela para o leigo que procura um tratamento. Outro, não menos relevante, levanta a dúvida sobre a relação entre médico e paciente.
Hoje, quem procura o serviço de saúde — seja em consultas, seja em atendimento de emergência — não é mais um agente passivo no processo, como antes acontecia. Agora, com o ilimitado acesso ao ecossistema digital, qualquer um consegue informações sobre sintomas e medicamentos, que aparecem traduzidos e até mesmo "analisados" pela IA. Porém, é preciso considerar que esse "saber" automatizado exige vigilância constante.
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Um chatbot pode gerar respostas que pareçam tecnicamente corretas e confiáveis, mas que estejam baseadas em fatos inexistentes. Diante disso, há, por exemplo, o risco da interpretação de um exame que mascare uma urgência real ou que aponte uma patologia inexistente. Os algoritmos, treinados a partir de dados, refletem o que está disponível nesse universo, sem considerar o contexto clínico e a avaliação física.
Em termos da jornada do paciente, a tecnologia mudou a dinâmica dos consultórios e fragilizou o vínculo humano. A desumanização da atenção, com a consequente perda do senso de acolhimento, pode afetar a adesão a longos procedimentos. Uma relação terapêutica distante, e que passa a ser ocupada por software, pode reduzir o nível de confiança de quem está em tratamento.
Sem dúvida, a medicina de precisão é uma conquista histórica, que deve receber cada vez mais investimento e atenção para se desenvolver e ser aplicada de forma ampla. Entretanto, é necessário ainda discutir os limites da automatização, dos sistemas de suporte, dos dispositivos como smartwatches e dos aplicativos específicos voltados para esse campo. A IA na saúde não é sobre máquinas e processos, mas sobre a vida e, com isso, a defesa do usuário do sistema tem de ser uma prioridade, pautando debates e ações governamentais.
Nesse cenário, o Brasil tem a oportunidade de dar início a um projeto que assegure o equilíbrio entre dados e diagnósticos. No último dia 11, foi aprovado o Estatuto dos Direitos do Paciente, que estabelece um marco legal sobre o tema. Nele, a busca pela garantia do atendimento humanizado, com foco na dignidade, é um dos objetivos em destaque. No rol de procedimentos, o uso de tecnologia de ponta — com o acréscimo de novos tratamentos de alta complexidade e a inclusão da robótica — possui diretrizes estabelecidas.
O equilíbrio entre a medicina tecnológica e a explicação humanizada é uma necessidade funcional. A máquina é imbatível na detecção de padrões, mas o profissional é único na interpretação de contextos. O exame identifica lesões e doenças, porém o diálogo é capaz de contextualizar a situação e perceber o impacto daquela dor no cotidiano do paciente. Ignorar essa camada do processo pode significar praticar uma medicina incompleta, por mais moderna que ela seja. A automação deve auxiliar o médico, e não substituí-lo completamente. O futuro da saúde plena depende do equilíbrio entre a tecnologia e a capacidade humana de análises.
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