* Por Sebastião Albano, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte
A seção Actividades Especiales do BAFICI 2026 (Festival Internacional de Cine Independiente de Buenos Aires, entre 15 e 26 de abril) tem se mostrado um lugar de reflexão verbal acerca da atividade audiovisual, com efeito cada vez mais racionalizada e talvez menos imaginativa em boa parte do mundo. Por exemplo, o Arquivo BAFICI é um projeto com o Museo del Cine Pablo Ducrós Hicken e “objetiva digitalizar e tornar acessível os materiais que documentam mais de 25 anos do Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente” (tradução livre). Na plateia do Hall Casaberta do Teatro San Martín estavam nomes tão relevantes como Andrés Di Tella, documentarista e um dos ideadores do evento, cujo início ocorreu em 1999, sempre com apoio do governo da Cidade. Este ano, corre a boca miúda por aqui, houve uma redução substancial da verba para a cultura, tanto proveniência do governo da cidade como do federal.
Di Tella e a montagista Valeria Racioppi, num café na saída de Una película de miedo, conversavam acerca do filme de Sérgio Oksman, brasileiro radicado na Espanha, o qual acabava, de assistir no Cacodelphia, outra boa sala do evento, apoiado ainda pela rede mexicana Cinépolis, que na região central de Buenos Aires mantém cines de qualidade superior. Di Tella esteve no Brasil várias vezes (É tudo verdade, DocSP e numa retrospectiva curada por ele mesmo e por mim em 2025 na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, UFRN). Di Tella em 2024 apresentou uma antológica masterclass na Cinemateca Brasileira. Se na entrevista que mantivemos com ele em 2024 e publicada em El ojo que piensa opinou que o BAFICI está em processo de amadurecendo e que foi seu primeiro diretor artístico 1999, ontem percebemos meio a contragosto o lugar comum de que um bom cineasta deve ser um bom espectador.
Todos os presentes no painel de lançamento do Arquivo do BAFICI foram diretores artísticos ou envergaram outro cargo executivo no Festival e manifestaram a necessidade de criar um arquivo multimídia do evento. Em sua fase romântica, se é pertinente esse predeicado para o termo ao tratar-se de um evento envolvendo quantias pecuniárias gigantescas e dedicado a uma expressão cada vez mais determinante no que tange aos destinos da política e da democracia no mundo, o BAFICI trouxe quase heroicamente à capital os superindependentes John Cassavetes, Paul Morrisey e até Francis Ford Coppolla, que acompanhava a ilustre convidada Sofia Coppola, sua filha. Por certo, ambos gostaram tanto da cidade más linda del mundo (novo lema oficial) que adquiriram uma casa que hoje funciona como hotel. Por certo, não parece haver ambivalência no designativo independente do título do Festival ainda quando se calcula o montante envolvido e a grandeza dos convidados, retirando das entrelinhas a sensação de que o conceito de independente vincula-se mais com certa liberdade na produção e na poética dos filmes vindos à luz no Festival e menos com o custo monetário de cada peça.
A seção Actividades especiales tem reunido em seu público muitos interessados em audiovisual para além dos papéis sociais dos espectadores, entre eles estudantes, intelectuais e meros cidadãos, desde que se assujeitem momentaneamente ao rol do público, naquela rubrica do público enquanto fã, ente disposto a conversar participativamente. No evento “La IA en la Industria Audiovisual”, ainda do Actividades espaciales, a atriz Jazmín Diz, cuja experiência enquanto atriz de voz recentemente revelou o grau de controversia que essa técnica e sua tecnologia podem suscitar, pelo que reclamou mais parcimônia em sua aplicação.
Outra mesa importante do mesmo Actividades espaciales versou a respeito da animação argentina recente (Mil inventos, un intento: La animación en Argentina hoy), em que David Bisbano e Juan Pablo Zaramella indicaram que a produção segue crescendo no país, com mais de 16 obras nesta edição do festival. Para o site RadixAnimación “O encontro se torna especialmente importante no panorama contemporâneo, tão alquebrado por uma série de políticas que atentaram contra a cultura em todas as suas formas e que, no caso da animação, repercutiu na educação, produção e difusão” (tradução livre). O BAFICITO, uma janela infantil com presença de vários países, projetará o desenho animado Papaya, da brasileira Priscila Kellen.
Falando de economia política argentina, no Le Monde Diplomatique de abril, na edição nacional, há um artigo de José Natanson cujo título é “Sobre la candidatura presidencial de Axel Kicillof” em que menciona que este candidato se posiciona como uma das opções consideradas progressistas para as eleições presidenciais de 2027. Axel Kicillof, peronista de alta patente do Frente de todos, segue como uma região política muito diversa, parecendo promover sobretudo a institucionalização dos valores trabalhistas interseccionados com os novos antagonismos, tais como as pautas sociais urbanas como movimentos dos sem teto, de gênero e os ambientalismos.
Falando em política, assistimos a um filme de Pablo Spátula no Centro Cultural Itaca, Maldita Eva (2024), fora da programação do BAFICI. O diretor é conhecido por suas películas engajadas que figuram personagens comunistas, dentre eles seu próprio pai, um dos motivos pelo que fizemos questão de conhecê-lo pessoalmente. Spátula foi homenageado na edição do ano passado do BAFICI.
Longe do Itaca, de volta ao café com Di Tella e Racioppi, questionamos o diretor e a montagista sobre a relação entre o Partido Comunista e o audiovisual no pais. Di Tella aventou a ideia de que na política partidária do país, recordando as divisões do Comunismo na Argentina, uma ala da agremiação tolerou a última ditadura militar de 1976, talvez devido a certa coincidência disciplinar, certa ideia de ditadura, certo militarismo etc. Apenas certa ala do Partido Comunista não todos os comunistas e bem menos os socialistas, pensamos, se enquadraram nessa posição. É sabido que o peronismo em verdade abarca esse vasto horizonte ideológico revelando assim sua inclinação para o populista. O BAFICI segue esta semana a sua jornada iluminista na capital argentina, abrilhantando mais de nove espaços na capital argentina, com a participação de vários países e mais de 300 filmes.
*Sebastião Albano é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente trabalha em seu pós-doutorado em Portugal, no México e na Argentina. Está em Buenos Aires cobrindo o BAFICI (Festival de Cinema Independente de Buenos Aires, versão XXVII).
