Os vaivéns de Donald Trump em sua guerra contra o Irã, entre acenos a um acordo e ameaças apocalípticas, dão poucos elementos seguros para qualquer previsão em torno do conflito. Se pode estar próximo de solução ou se tende a se prolongar sem horizonte à vista, verdadeiramente: nenhum analista ou observador com alguma dose de seriedade associaria o próprio nome — e a reputação — a qualquer tipo de previsão.
Mas, a poucos dias de completar dois meses, a guerra no Oriente Médio acumula algo mais além de um punhado respeitável de milhares de vítimas — sobretudo no próprio Irã e no Líbano, alvos preferenciais dos ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel. Um apanhado parcial indica 3,5 mil iranianos mortos. No Líbano, mais de 2 mil, além de 1,2 milhão de civis deslocados do sul e leste do país — algo como um entre cinco ou seis habitantes.
Desde que ocupou, pela primeira vez, a Casa Branca, entre 2017 e 2021, Donald Trump acostumou-se a espezinhar o sistema criado para reger as relações internacionais depois da Segunda Guerra Mundial, o conflito armado mais letal da história da humanidade. Em especial no retorno à presidência dos EUA, em 2025, o magnata republicano vem atacando sistematicamente a ONU: alega que é "cara demais".
O Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), sediado nos EUA, porém, calcula que Trump gastou US$ 3,7 bilhões apenas nas primeiras 100 horas da guerra — pouco mais do que quatro dias. O orçamento das Nações Unidas para todo o ano de 2026 prevê gastos de US$ 3,5 bilhões.
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Às vésperas de completar dois meses, a guerra de Donald Trump e do premiê israelense, Benjamin Netanyahu, acumula prejuízos não apenas para os respectivos países e para seus alvos. O Irã contabiliza, inicialmente, prejuízos da ordem de US$ 71 bilhões para sua infraestrutura. O Líbano, ainda que o inimigo declarado seja a milícia pró-iraniana Hezbollah, não tem um cálculo de perdas materiais.
Na ausência de um horizonte minimamente nítido para o desfecho, a guerra no Oriente Médio se perfila como pesadelo para a economia mundial. A diretora-geral do Fundo Monetário Mundial (FMI), a búlgara Kristalina Georgieva, alerta para o risco de uma recessão global.
Os economistas lutam com lápis e calculadoras para determinar o impacto global do impasse no Estreito de Ormuz, via marítima incontornável para 20% do petróleo negociado no mercado internacional. Desde o ataque inicial americano-israelense ao Irã, a cotação do petróleo saltou do patamar de US$ 70 e passou a oscilar em torno de US$ 100 o barril.
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Para o Brasil, que em 2024 importou diariamente 280 mil barris, o custo adicional pode chegar à ordem de US$ 8,5 milhões por dia. Mas os impactos econômicos do conflito têm alcance mais vasto e imediato.
As companhias aéreas, sobretudo na Europa, disparam o sinal de alerta. De um lado, pela escassez de querosene de aviação. De outro, pela disparada dos preços. A caminho da temporada de turismo do verão no Hemisfério Norte, as tarifas disparam e a oferta de viagens se reduz. A alemã Lufthansa cancelou mais de 20 mil voos considerados menos rentáveis.
A perspectiva de prolongamento do conflito emana ondas de choque, com impacto tanto mais duro e dramático para as economias mais vulneráveis. Projeta, para o curto e médio prazo, o risco de tensões sociais e políticas com potencial explosivo, como observou o papa Leão XIV na recente visita à África.
Por vezes, soa conveniente ou adequado investir contra as Nações Unidas, até pela impotência que demonstra. Mas é na diplomacia que pode residir, ainda, alguma esperança de conter as forças de destruição que se acumulam mundo afora.
A diplomacia demanda reflexão, esforço discreto e persistência. Exige, igualmente, gastos e investimentos. Mas os números sugerem: eles são infinitamente inferiores aos de uma guerra que se aproxima ainda dos 60 dias.
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