ARTIGO

Cão que ladra não morde

Ao recuar do novo ultimato ao Irã e tentar vender uma imagem de sucesso militar, Trump se expõe ao mundo como um líder desmoralizado e incapaz de cumprir promessas nada factíveis

. -  (crédito:  AFP)
. - (crédito: AFP)

Não surpreende o recuo de Donald Trump de novo ultimato — dessa vez, catastrófico — dado ao Irã. Na noite de ontem, o presidente dos Estados Unidos anunciou que aceitou o pedido do Paquistão e suspendeu, por duas semanas, o prazo para a abertura do Estreito de Ormuz. Boquirroto e explosivo, o titular da Casa Branca havia feito adiamentos sucessivos do ultimato. Agora, ao tentar vender uma imagem de sucesso militar, o republicano se expõe ao mundo como um líder desmoralizado e incapaz de cumprir promessas nada factíveis.  

Mais de 93 milhões de iranianos não têm culpa do regime teocrático islâmico que os governa a mão-de-ferro, mas também não podem pagar caro pela ganância do petróleo e pela retórica escorregadia de um líder megalomaníaco e que julga comandar a mais grandiosa potência do planeta. Trump ameaçou lançar o Irã na Idade da Pedra e bombardear todas as suas pontes e infraestrutura energética.

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Sem comover os aiatolás, que recusaram uma trégua, o "(rei)publicano" da Casa Branca ameaçou, então, exterminar a civilização persa, que tem mais de 5 mil anos. Sem que o Congresso de seu país ou uma outra autoridade com o juízo no lugar desse um basta nos arroubos messiânicos de um ex-apresentador de televisão que confunde o Salão Oval com estúdio de reality show.

Desespero é o que move Trump. Arrastado a uma aventura belicista por Benjamin Netanyahu, o presidente dos Estados Unidos foi surpreendido pela estratégia de sabotagem econômica de Teerã, ao fechar o Estreito de Ormuz e impedir a exportação de um quinto do petróleo do mundo. Resultado: os preços da commodity explodiram, levando à alta na cotação da gasolina, do diesel e do querosene de aviação, e causando instabilidade nos mercados internacionais. Se Trump gaba-se de ser executivo de sucesso, faltou-lhe visão básica de negócios ao lidar com o Irã. Agora, o político se vê forçado a lidar com um regime pouco incomodado com ameaças.

Em tese, o presidente americano precisa ser responsabilizado pelas mortes de 160 meninas de uma escola do sul do Irã bombardeada no início do conflito. A régua moral parece passar longe de Trump, que insistiu em culpar o Irã, sob a alegação de que não teriam boa pontaria. Nesta segunda-feira, ele disse não se importar com crimes de guerra supostamente cometidos pelos EUA. A justificativa soou como estapafúrdia: a de que crimes de guerra são atribuídos ao Irã na medida em que busca desenvolver armas nucleares. Detalhe: o próprio Trump garantiu que o programa de enriquecimento de urânio de Teerã tinha sido "obliterado". 

O ex-apresentador do reality show O Aprendiz pode estar se demitindo do panteão de presidentes dos EUA conhecidos pelo apreço à democracia e ao Estado de Direito. Em 443 dias de governo, Trump acumula mais fiascos e polêmicas do que êxitos. E uma guerra capaz de mergulhar os EUA na recessão econômica e de determinar o fracasso de seu governo.

 

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postado em 08/04/2026 06:00
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