ARTIGO

Brasília na rota 66 e a falta de um parabéns pra você

Agora, nos 66 anos da capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão em que a cidade está mergulhada

Silvestre Gorgulho jornalista. Foi secretário de Estado de Comunicação e secretário de Estado da Cultura de Brasília

Há 70 anos, em 18 de abril de 1956, Brasília começou a vencer a burocracia para sair do papel e entrar na fase do concreto, com a Mensagem de Anápolis.

Em 21 de abril de 1960, a capital era inaugurada com pompa e circunstância pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira. Lá se vão 66 anos. Nos 65 aniversários anteriores, os brasilienses assistiram a comemorações variadas: algumas simples, mas eufóricas. Outras apoteóticas. Todas sempre regadas a danças e festanças. Mas, nunca, o aniversário de Brasília foi comemorado com tanta displicência, apatia e baixo astral, como agora. A festa dos 66 anos de Brasília ficou restringida à bela edição do irmão gêmeo de Brasília, o Correio Braziliense, inclusive com a tradicional e empolgante Maratona.

Parece que Brasília está em depressão. 

Lembro-me que, em 21 de abril de 2010, no cinquentenário da cidade, depois da capital ter passado pela crise de ter quatro governadores, a Câmara Legislativa elegeu, indiretamente, dois dias antes, um novo ocupante do Buriti. Mesmo com tantas cicatrizes, a cidade lavou a alma com uma "Festa dos 50 Anos", que levou mais de um milhão de pessoas à Esplanada dos Ministérios. 

Não havia nem um político no palco. A festa foi totalmente paga pela iniciativa privada com apoio logístico da Secretaria de Cultura. Deram às mãos Sinduscon, Associação Comercial, Ademi, Asbraco e Fecomércio. Brasília cantou e dançou com Daniela Mercury — que foi âncora de um show histórico na Esplanada, onde se apresentaram com ela nada menos de 39 artistas da cidade. 

À meia-noite, uma grande surpresa estava guardada a sete chaves. Apenas cinco pessoas sabiam. Além da Daniela Mercury, eu, como secretário de Cultura, e mais duas pessoas de minha equipe. E, também, o próprio gênio da MPB que iria se apresentar, cantando apenas uma canção. 

Apagaram-se as luzes. Estava anunciado o início da queima de fogos. Antes, um canhão de luz focou diretamente o palco e uma voz límpida e forte, a capela, ecoou pela escuridão. Aos poucos, sob o holofote, surge Milton Nascimento: "Como pode o peixe-vivo / viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia...".

Foi uma apoteose! A voz de Milton Nascimento reverberou pelos quatro cantos do Brasil. Sim, a TV Globo transmitiu tudo ao vivo. Um misto de euforia e de emoção tomou conta da multidão. 

Na segunda estrofe, entra Daniela Mercury que faz dueto com Milton. Aos poucos, começam a entrar cada um dos 39 artistas brasilienses que tinham se apresentado. 

E a Esplanada, num coral de um milhão de vozes, sacudiu o Cerrado: "Como pode o peixe-vivo /viver fora da água fria? Como poderei viver sem a tua, sem a tua companhia...".

Vi muita gente chorando. A energia de tantos candangos celebrando os 50 anos de Brasília contagiou a cidade e ajudou a levantar o astral de um tempo triste e sombrio que a cidade vivia.

Agora, nos 66 anos da capital, faltou ao atual governo sensibilidade e criatividade para tirar Brasília de uma depressão em que a cidade está mergulhada. 

Para não dizer que falei apenas dos 50 anos da cidade, vou lembrar a comemoração de quando Brasília fez um ano, em 21 de abril de 1961. O presidente da República era Jânio Quadros. Ele estava de costas para a cidade. Falava até em voltar a capital para o Rio de Janeiro. O prefeito, Paulo de Tarso, assoberbado com finalizações de infraestrutura e questões administrativas, nem pensou no assunto.

Na semana anterior, o então secretário da Cultura (na época presidente da Fundação Cultural), o poeta maior José Ribamar Ferreira ou, simplesmente, Ferreira Gullar, organizou as comemorações do primeiro aniversário. Evidentemente, com todas as dificuldades de uma cidade ainda na placenta da História. O que ficou da festa — além de um singelo coquetel no gabinete do prefeito Paulo de Tarso, foi a poesia que nasceu da pena de Ferreira Gullar. 

A verdade é que, com seus pouco mais de 100 mil habitantes (hoje são mais 3 milhões), Brasília teve mais poesia do que festança. Sem nenhum tipo de condução e sem nenhum apoio logístico para celebrar o Ano 1 da nova capital, Ferreira Gullar buscou solução no Exército Nacional. Marcou audiência.

Um major o recebeu educadamente. Depois de muita conversa, o oficial se saiu com essa: 

— Dr. Gullar, tudo bem, mas o problema é viatura e gasolina.

— Eu sei, mas qual a solução?

— Dr. Gullar, não tem solução!

Sem solução, sem apoio, com bastante poeira e muita inspiração, Ferreira Gullar aproveitou o vinho comemorativo no final de tarde do dia 21, na sala do prefeito Paulo de Tarso, sacou do bolso um poema em forma de embolada e discursou aos convivas: "Não adianta, seu prefeito, abrir estrada. / Não adianta carnaval na Esplanada. / Não adianta Catedral de perna fina /

Não adianta rebolado de menina / Que o problema é viatura e gasolina.

Todo mundo riu muito, mas ninguém perdeu o ritmo: "O problema é viatura e gasolina". Bons tempos aqueles, quando o astral era altíssimo e o problema era só viatura e gasolina.

 

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