Nos últimos dias, a guerra no Irã e a tentativa de assassinato do presidente Donald Trump roubaram os holofotes da mídia internacional. Enquanto isso, incidentes registrados na África praticamente passaram despercebidos. Na verdade, não parecem chocar ou incomodar a opinião pública mundial. O que é absolutamente bizarro e injustificável. Na Nigéria, na última segunda-feira, homens armados executaram 29 pessoas que se reuniam em um campo de futebol, no estado de Adamawa, na fronteira com Camarões. No mesmo dia, no Mali, rebeldes associados à rede Al-Qaeda espalharam o terror e o medo, com carros-bomba, disparos e o assassinato do ministro da Defesa, Sadio Camara. No leste do Chade, um conflito entre grupos étnicos motivado pelo controle de um poço de água deixou pelo menos 42 mortos.
A ausência de um Estado sólido e estável, a política carcomida pela corrupção, economias frágeis e uma população jovem tolhida de expectativas de ascensão financeira ou social formam o substrato ideal para a violência. É nesse meio que grupos terroristas e insurgentes encontram abrigo para prosperar, à revelia das leis. Na Nigéria, o grupo fundamentalista Boko Haram semeia o caos na região nordeste, sequestrou recentemente 416 mulheres e crianças e ameaçou uma execução em massa, caso não recebessem o pagamento de um resgate equivalente a R$ 18 milhões. Sequestros de estudantes têm sido recorrentes em uma área na qual o Estado parece não ter mais qualquer controle.
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Eu era criança quando o mundo se comoveu com a fome na Etiópia e um punhado de astros do mundo pop, como Michael Jackson, Lionel Richie, Bob Dylan, Bruce Springsteen e outros, gravaram uma canção intitulada We are the world. Eram a década de 1980 e, apesar do apelo quase catártico da campanha, pouca coisa — ou nada — mudou na África. Em que pese o trabalho louvável dos Médicos Sem Fronteiras, das Nações Unidas e de outras organizações não governamentais, a raiz do problema segue sem tratamento.
O continente africano é o que menos se desenvolve no planeta e onde a democracia mostra-se mais fragilizada. Parte da culpa vem da herança colonialista, usurpadora de riquezas e escravagista. Mas uma parcela da responsabilidade advém da comunidade internacional, especialmente de potências europeias que exploraram recursos econômicos ao bel-prazer e não se preocuparam em forjar economias destroçadas pelo intervencionismo.
Seria um ato inicial de reparação histórica se nações ricas ocidentais despendessem parte de seu tempo e mobilizassem seus melhores quadros para uma conferência internacional voltada ao desenvolvimento, à segurança alimentar e à erradicação da violência na África. E que essa conferência rendesse não apenas boas propostas, mas ações eficazes e de longo prazo. Chega de tratar um continente com 1,57 bilhão de pessoas — 19% da população mundial — como uma região esquecida.
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