
Era por volta das 19h30 de uma quinta-feira quando José (nome fictício) chegou em casa, na periferia do Distrito Federal, após um longo dia ao volante. O homem de 56 anos, motorista de aplicativo e aspirante a deputado distrital, apressou-se. Ao lado da esposa, empregada doméstica, ele se trocou quando o Sol já havia se despedido — um horário incomum para o ritual. A ocasião pedia trajes mais alinhados. O destino? Um "curso de política", como explica a amigos e vizinhos, em outra região administrativa. A rotina, longe dos holofotes de Alcolumbre-Messias-Lula-Bolsonaro, revela um movimento silencioso meses antes das eleições de outubro: a iniciação do "baixo clero" brasileiro na vida pública. É a introdução à política do brasileiro.
Diferentemente dos que duelam pelo Planalto, milhares de cidadãos tentam o primeiro e inédito passo rumo à política em solo onde poucos lançam o olhar — inclusive a imprensa. São líderes comunitários, pastores, professores ou desempregados que apostam no prestígio local para viabilizar a empreitada.
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O próprio José é uma liderança religiosa. Pastor itinerante por diversas cidades-satélites, ele goza de popularidade. Sua fé, genuína e esteio em momentos de crise, tornou-se agora ponto central de um embate estratégico. Durante o "curso" — na verdade, uma palestra partidária —, José foi orientado a moderar o tom religioso. "Pode afastar os católicos", alertou um senador.
Nos corredores da Universidade de Brasília (UnB), aprendi cedo que a grade curricular obrigatória do jornalismo não basta; a formação exige o garimpo de matérias optativas e de módulo livre. Entre tantas opções, as "introduções" funcionam como portais para universos desconhecidos.
José vive a própria "introdução à política" do mundo real. Diferentemente dos bancos acadêmicos, o aluno de 56 anos não debaterá o Contrato Social de Rousseau, o Leviatã de Hobbes ou o liberalismo de Locke. Os ensinamentos ali são pragmáticos.
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Por mais anacrônico que pareça na era digital, José foi convencido da importância do tête-à-tête. A ordem é abandonar as correntes de WhatsApp e encarar o eleitor face a face. "Graças a Deus, não entendo nada de rede social", desabafou, aliviado, ao compartilhar a diretriz com os amigos. Outra lição fundamental: "encontrar sua causa social".
A tarefa soou complexa. Falar de esporte comunitário, educação integral, postos de saúde ou proteção animal. Embora José ainda confunda políticas de governo com funções legislativas, ele não se abala. Confessou, com honestidade desconcertante, que a derrota não seria um problema, desde que pudesse trabalhar com o vencedor.
Talvez José não encarne o ideal de estadista da democracia brasileira, mas ele já é parte indissociável dela. Para cada tubarão que disputa o oceano eleitoral, existem milhares de piabas que, contra ou a favor da correnteza, dão volume ao cardume democrático.
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