ARTIGO

Onde comecei

Hoje, O Imparcial, jornal onde comecei minha carreira de jornalista, aos 17 anos, faz 100 anos. Que venham outros 100, e que ele nunca deixe de ser tão necessário quanto é!

opini 0105 -  (crédito: kleber)
opini 0105 - (crédito: kleber)

José Sarneyex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL)  

Hoje, O Imparcial, jornal onde comecei minha carreira de jornalista, aos 17 anos, faz 100 anos. Assim, escrevi o texto abaixo comemorando a data. O jornal é um órgão dos Diários Associados e está integrado à minha vida. Com licença dos editores do Maranhão e permissão dos editores de Brasília, transcrevo abaixo o artigo, pedindo aos meus leitores que comunguem comigo deste aniversário e da emoção:

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Cem anos completa O Imparcial — e como ele faz parte da minha vida! Algumas coisas não passam: ficam. E tornam-se parte do que somos. Ontem, em 1946, o jornal tinha 20 anos, e eu, 16. Éramos adolescentes. Faltaram profissionais, e O Imparcial resolveu fazer um concurso de reportagem. Fui atrevido:  concorri com um texto sobre a Quinta do Barão e me surpreendi com o resultado: tirei o primeiro lugar e fui contratado como repórter. O posto inicial em qualquer jornal era o de repórter policial. Azoubel, o grande fotógrafo da casa, que depois se tornou um grande amigo, me acompanhava todas as madrugadas: íamos visitar as delegacias e saber das ocorrências policiais. Viver naquele mundo tão adulto era como estar num filme para mim: não era trabalho, era uma aventura. Eu, novinho, era o foca do jornal, termo como era tratado o jornalista iniciante. Foi o começo de uma carreira que me levou a secretário, redator, editorialista e "quase ajudante" do diretor Pires de Saboia, um dos maiores amigos de minha vida, meu padrinho de casamento, meu deputado federal e meu colaborador e consultor permanente no governo do Maranhão. Ainda vejo tudo isso se passar na memória: não apenas como memórias fotográficas, mas como algo maior que nos faz compreender Einstein: o tempo é mesmo relativo.

Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, ao qual pertencia O Imparcial, que também se tornou meu amigo, quando me encontrava sempre dizia: "Você entrou para o jornal por concurso" — e isso me trazia uma grande alegria que ainda sinto hoje, que pelo jeito me acompanhará sempre. Quando fui eleito governador, ele escreveu um artigo contando minha história no jornal, com o título O governador policial — essa alcunha quase ficou permanente.

Foi minha primeira vitória na vida e determinante de minha carreira cultural e política, pois ali passei a editor do Suplemento Literário, caderno responsável pelo neomodernismo no Maranhão, que abrigou em suas páginas jovens poetas — Lago Burnett, Carlos Madeira, Evandro Sarney, Ferreira Gullar… — e foi revelador de grandes escritores. Colaboravam ali festejados nomes da literatura brasileira, Odylo Costa, filho, Franklin de Oliveira, Josué Montelo, e mantínhamos um intercâmbio com todos os movimentos culturais e as revistas daquela época, depois da Segunda Guerra, com Dalton Trevisan e a Joaquim, no Paraná; Antônio Girão Barroso e Clã, no Ceará; Quixote, no Rio Grande do Sul, com Raimundo Faoro — que depois veio a ser o grande jurista que tanto ajudou a derrubar o Movimento de 64 —; Ledo Ivo e Afonso Félix de Souza e Branca, no Rio; Região, em Pernambuco — onde Mauro Mota dirigia o suplemento literário do Diário de Pernambuco —; na Paraíba, com Edson Régis; e nós no Maranhão com a Ilha, fundada por mim e Bandeira Tribuzzi, Bello Parga, Carlos Madeira, meu irmão Evandro. Dessa época, veio minha fraternal amizade com Odylo Costa, filho, o meu maior amigo-irmão, amizade que já atinge três gerações de nossas famílias, que muito me ajudou no Rio de Janeiro, com suas amizades que me transmitiu e o apoio permanente a vida inteira. 

O fundador de O Imparcial foi o J. Pires, assim era conhecido. Com ele não tive intimidade, apenas as relações de patrão e empregado, pois, em breve, ele venderia o jornal aos Diários Associados, quando veio um grupo do Ceará para dirigi-lo, entre eles Otacílio Colares e Pires Saboia — este que aqui constituiu família e passou no estado o resto da vida.

O velho J. Pires era baixo, magrinho, usava camisa e suspensório e gostava de ligar a sirene de alarme e pendurar na porta do jornal um quadro negro com as notícias maiores da guerra: batalhas, rendições e combates. Depois, alguns anos mais tarde, entrou na política estadual ao lado do senador Vitorino Freire, nosso adversário, e foi presidente da Assembleia, e seu filho, o Dr. Antonio Pires, prefeito de São Luís numa eleição controvertida, à moda da velha política do Maranhão.

Em O Imparcial também conheci Nascimento de Morais, o grande jornalista do Maranhão que escrevia uma coluna com o pseudônimo de Braz Sereno. E ainda outro jornalista muito festejado e combativo, Amaral Raposo; e muitos outros mais, igualmente relevantes, como o que depois foi dono do Jornal Pequeno, o Ribamar Bogea, do setor de Esportes; o Correa da Silva —, a quem sucedi na Academia Maranhense de Letras, poeta, cantor da cidade de São Luís, injustamente esquecido —, além de muitos outros colegas de redação, revisores, repórteres, colaboradores. Todos bem guardados em meu coração. 

O Imparcial foi fundado com a finalidade de ser um jornal independente — daí seu nome —, não filiado a grupos políticos, como era moda antigamente. Ao longo do tempo, bem ou mal, cumpriu seu destino e assim permanece até hoje.

Foi também o jornal revelador de vários nomes da política do Maranhão, acompanhando de perto os fatos mais relevantes de nossa História, que ninguém pode estudar sem consultar seus exemplares, repositório da vida cotidiana maranhense, de seus costumes, seus progressos e decadências. Podemos mesmo dizer — se perdoarem a minha vaidade — que eu me incorporo a sua História, pois foi onde comecei e, para o homem que eu era e o pouco que somos diante de mundo, parece que cheguei longe, pois figuro entre as referências da trajetória de O Imparcial, tendo-me tornado presidente da República e membro da Academia Brasileira de Letras, na qual ocupo a Cadeira 38, cujo patrono é Tobias Barreto, sendo o primeiro ocupante o nosso conterrâneo Graça Aranha.

Aos 96 anos de idade, ainda escrevo semanalmente para os Diários Associados, às sextas feiras, no Correio Braziliense, o grande jornal de Brasília, tendo meu artigo publicado também em dezenas de sites e blogs. Ao longo de minha vida de jornalista, já escrevi oito livros com o registro de minhas crônicas publicadas em jornais — e tenho mais quatro inéditos, cujas publicações sairão em breve.

Na idade madura que estou, percebo com a nitidez de um Sol que toda a formação cultural que me estruturou na vida se fez ali, naquela redação. E até hoje me trazem lágrimas aos olhos e aceleram as batidas de meu coração quando do nada me vêm o cheiro do papel, o barulho das máquinas de escrever e o burburinho dos colegas tecendo as notícias do dia. É quando me vem a certeza de que, naquele pequeno mundo, fazíamos parte da construção do pensamento de uma nação, que, após tantos sustos e alegrias, hoje nos torna orgulhosos diante do mundo, pois somos, inequivocamente, um Estado Democrático e uma democracia de massa.

Muito obrigado, meus colegas de ofício, meus companheiros de alma! Obrigado, meu jornal, lembrança indelével de minha vida.

Minha gratidão por fazer parte de sua história, que se confunde com a história da imprensa do Maranhão. Que venham outros 100, e que ele nunca deixe de ser tão necessário quanto é!

Cem (100) anos! Salve o centenário do nosso O Imparcial.

 

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Por Opinião
postado em 01/05/2026 06:00
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