
Foi durante chuvosas férias de julho em uma cidadezinha serrana que descobri a paixão por revistas antigas. No guarda-roupa da minha avó, encontrei um tesouro: pilhas da revista Seleções de 1950, uma década que sempre me fascinou pelas roupas, pela música e pelo cinema. Alguns exemplares tinham furinhos de traça, mas a maioria estava muito bem preservada. Tinham sido compradas por meu pai na juventude, quando, embora torcesse o nariz para o colonialismo ianque, colecionava o periódico da Reader´s Digest para ler livros inéditos no Brasil, que eram publicados em formato folhetim.
As leituras de Seleções preencheram os dias sonolentos. Além das matérias, eu amava as propagandas de cosméticos e eletrodomésticos, ilustradas por lindas mulheres de batom vermelho e cabelo impecável. Mais do que uma estratégia antitédio (a internet chegaria uns 10 anos depois), a revista foi uma verdadeira aula sobre a mudança nos costumes.
Dicas sobre como agradar o marido servindo o jantar recém-saído do forno (de salto alto e laquê no cabelo) ou conselhos para leitoras que procuravam a revista com perguntas como "Devo dar a ele uma prova de amor antes do casamento?" pareciam saídas de outro planeta. Mal eu percebia que aquele padrão continuava firme nas publicações da minha época — disfarçadas, porém, por roupas mais atuais e um linguajar repleto de gírias, para soar contemporâneo.
Lembrei-me da pilha de Seleções encontrada no armário da vó Maria ao começar a seguir um perfil no instagram de uma colecionadora de revistas antigas — antigas, agora, são as dos anos 1980, 1990 e 2000. Acompanhando as postagens, vejo como publicações voltadas a jovens leitoras moldavam a mulher da mesma forma que as de meados do século 20. Especialmente os títulos para adolescentes continuavam nos ensinando a fazer sacrifícios para agradar ao homem. Só que, em vez de cozinhar com salto alto e meia de seda, davam dicas de como passar fome e perder 3kg em um fim de semana "para fazer bonito para o gatinho".
Uma dessas publicações, já nos anos 2000, tinha uma coluna fixa, na qual os meninos davam nota para o visual das garotas, quase sempre chamando atenção para a "vulgaridade" de peças como minissaias e tops curtos usados por adolescentes de 14, 15 anos. "Veja se o gato aprova seu guarda-roupa." É sério, eu vi uma matéria com esse título.
Focadas em "fisgar um gatinho", as pautas dessas revistas pareciam dizer às garotas que conquistar o sexo oposto era o objetivo de vida de uma mulher. Para isso, aconselhavam a perdoar traições, a usar o "look certo para atrair olhares"; ensinavam "como chegar no gato sem parecer atrevida" e chegavam ao cúmulo de perguntar aos homens (isso nas revistas para as mais velhas) qual estilo de depilação feminina "ideal".
Algumas dessas publicações sobreviveram, no formato digital. Muitas coisas permanecem, como testes e matérias sobre relacionamentos. Mas ler um título como "Você merece se sentir bem sendo exatamente quem você é" e "Invista em roupas confortáveis para assistir a um show" dá esperança de que as próximas gerações não sejam bombardeadas com conteúdos misóginos como nós, nossas mães e avós foram.

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