ARTIGO

No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas

O princípio fundamental da segurança viária é simples, mas exige compromisso: o erro pode acontecer, mas a morte não pode ser a consequência. Sistemas seguros são desenhados justamente para absorver falhas humanas

Paulo Guimarães. CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária -  (crédito: divulgação )
Paulo Guimarães. CEO do Observatório Nacional de Segurança Viária - (crédito: divulgação )

Paulo GuimarãesCEO do Observatório Nacional de Segurança Viária, formado em engenharia civil, especialista em gestão e normatização de trânsito

Antes de tudo, é preciso entender o que significa, de fato, "enxergar o outro" no trânsito. A expressão, que inspira campanhas e discursos, carrega duas dimensões complementares. A primeira é objetiva: diz respeito aos pontos cegos — aqueles espaços invisíveis aos olhos de quem dirige, seja no entorno dos veículos, seja em situações comuns como esquinas e cruzamentos. A segunda é mais profunda e incômoda: trata da nossa cegueira social, alimentada pela pressa, pelo individualismo e por uma cultura que, ao longo do tempo, normalizou a indiferença e enfraqueceu a empatia.

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Todos temos pontos cegos — físicos e de atenção. E, não por acaso, é justamente nesses espaços que se encontram, com frequência, os usuários mais vulneráveis do sistema viário: pedestres, ciclistas e motociclistas. Mas "enxergar" não se limita a perceber riscos ou antecipar perigos. Enxergar é reconhecer o outro como alguém que tem uma vida, uma história, uma família, vínculos, responsabilidades e sonhos. É compreender que o corpo humano é frágil e que o erro — humano por natureza — faz parte da dinâmica do trânsito e das interações sociais. O que não pode fazer parte dessa dinâmica é a morte como consequência do erro.

Nos últimos anos, banalizamos um raciocínio perigoso e socialmente aceito. Quantas vezes ouvimos — ou até mesmo reproduzimos — frases como: "Foi atropelado… mas também atravessou fora da faixa"; "Caiu de moto… mas também andava em alta velocidade"; "Foi atingido… mas também não estava na ciclovia". Essa lógica transfere, de forma quase automática, a responsabilidade para a vítima. E, ao fazer isso, desumaniza o problema, simplifica uma questão complexa e enfraquece qualquer esforço consistente de prevenção.

O princípio fundamental da segurança viária é simples, mas exige compromisso: o erro pode acontecer, mas a morte não pode ser a consequência. Sistemas seguros são desenhados justamente para absorver falhas humanas — previsíveis e inevitáveis — sem que elas resultem em tragédias irreversíveis. Esse é o ponto de partida para qualquer transformação real. Isso exige mudança de comportamento: individual e coletiva — e um compromisso genuíno com a preservação da vida.

Para quem dirige, enxergar o outro começa por reduzir a velocidade, especialmente em áreas urbanas, onde há maior interação entre diferentes usuários da via. A velocidade não é apenas um número no painel: é o fator que, na prática, define se alguém vive ou morre em um sinistro. É também reconhecer os próprios limites de percepção, estar atento aos pontos cegos, manter distância segura e respeitar a travessia — lembrando que, fora do veículo, não há qualquer proteção.

Para quem pilota uma motocicleta, enxergar significa reconhecer a própria exposição. Na moto, o corpo é a carroceria. Controlar a velocidade, evitar decisões impulsivas, posicionar-se de forma visível e utilizar equipamentos adequados não são escolhas individuais isoladas, são atitudes consistentes que reduzem drasticamente o risco de morte e aumentam a previsibilidade no trânsito.

Para ciclistas, a segurança passa por enxergar o ambiente e, ao mesmo tempo, tornar-se visível para os demais. Iluminação, sinalização e previsibilidade são elementos essenciais, sobretudo em um sistema ainda pouco preparado para integrar, de forma equilibrada, diferentes modos de transporte e garantir convivência segura entre eles.

E mesmo o pedestre, que tem prioridade legal, precisa compreender sua vulnerabilidade física. Atravessar com atenção, evitar distrações, respeitar os tempos semafóricos e buscar contato visual com motoristas são atitudes simples, mas fundamentais, que podem salvar vidas e deixar o trânsito mais seguro.

No fundo, todas essas recomendações convergem para um mesmo ponto: parar de procurar culpados e começar, de fato, a proteger vidas. Porque, no trânsito, olhar não é suficiente. É preciso enxergar. E, quando enxergamos de verdade, entendemos que ninguém deve morrer por um erro — nem o seu, nem o do outro.

 

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Por Opinião
postado em 06/05/2026 06:00
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