ARTIGO

Casamento e IR: falta de diálogo pode custar caro

O casamento civil é, antes de tudo, uma manifestação de vontade que produz efeitos concretos, inclusive perante o Fisco

. -  (crédito: Sandy Millar/Unsplash)
. - (crédito: Sandy Millar/Unsplash)

Rudyard Rios — juiz de paz pelo TJDFT

A declaração do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) por pessoas casadas costuma ser tratada como uma escolha meramente técnica, restrita ao campo tributário. Contudo, essa decisão revela muito mais do que uma opção fiscal: expõe a forma como o casal organiza sua vida patrimonial, dialoga sobre dinheiro e compreende responsabilidades comuns. Não por acaso, as questões financeiras têm ocupado posição de destaque entre os fatores de desgaste e dissolução dos vínculos conjugais na contemporaneidade.

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A legislação tributária brasileira não impõe a obrigatoriedade de declaração conjunta para pessoas casadas. A Lei nº 9.250/1995, aliada às normas infralegais da Receita Federal, permite que cada cônjuge apresente a própria declaração ou que um deles inclua o outro como dependente, resultando na chamada declaração conjunta.

Assim, há duas possibilidades juridicamente válidas: declaração conjunta, quando um cônjuge figura como titular e o outro como dependente, com a soma de rendimentos, bens e deduções; e declarações separadas, em que cada cônjuge declara os rendimentos próprios e sua parcela dos bens comuns, quando existentes.

A escolha não é determinada pelo Código Civil, mas deve respeitar a correta titularidade dos rendimentos e do patrimônio, sob pena de inconsistências fiscais e questionamentos pelo Fisco. O regime de bens adotado no casamento exerce influência direta sobre a forma de declaração patrimonial.

Na comunhão parcial de bens, regime legal previsto no artigo 1.658 do Código Civil, comunicam-se os bens adquiridos na constância do casamento. Nessa hipótese, caso os cônjuges optem por declarações separadas, cada um deverá declarar, em regra, 50% dos bens comuns.

Na comunhão universal, todos os bens são comuns, independentemente do momento de aquisição, aplicando-se lógica semelhante quanto à divisão patrimonial na declaração individual.

Já na separação total de bens, prevista nos artigos 1.687 e 1.688 do Código Civil, cada cônjuge declara exclusivamente os bens e rendimentos de sua titularidade, inexistindo comunicação patrimonial.

A compreensão adequada do regime de bens não é apenas relevante para eventual dissolução do vínculo, mas também para o correto cumprimento da obrigação tributária anual. Embora a jurisprudência não trate de forma direta e abundante da escolha entre declaração conjunta ou separada, os tribunais têm reiterado princípios fundamentais aplicáveis ao tema, como a necessidade de observância da titularidade dos rendimentos e da transparência patrimonial.

Decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), a exemplo do afastamento da incidência do imposto de renda sobre pensão alimentícia, reforçam a ideia de que o tributo deve incidir apenas sobre efetivo acréscimo patrimonial, respeitando a natureza jurídica das relações familiares.

A doutrina tributária, por sua vez, aponta que a escolha da forma de declaração deve ser precedida de planejamento fiscal responsável, considerando a progressividade do imposto, o perfil de renda do casal e as deduções possíveis. Já a doutrina do direito de família destaca que a organização financeira do casal é elemento estruturante da vida conjugal, com reflexos diretos na estabilidade do vínculo.

Pesquisas e levantamentos indicam que conflitos financeiros figuram entre os principais fatores associados às separações na atualidade, revelando que o silêncio sobre dinheiro, longe de preservar a harmonia, frequentemente aprofunda fissuras no relacionamento.

Gastos ocultos, dívidas assumidas sem ciência do outro, ocultação de patrimônio, movimentações financeiras unilaterais e ausência de transparência configuram o que se tem chamado de traição financeira. Trata-se de comportamento que mina a confiança mútua e produz efeitos tão danosos quanto outras formas de infidelidade.

Falar sobre dinheiro no casamento é sinal de cuidado. Planejar conjuntamente, compreender rendas, dívidas e obrigações fiscais é parte do compromisso assumido na vida em comum. Ignorar essas conversas, ao contrário, tem se revelado um dos fatores silenciosos de desgaste das relações, contribuindo para o aumento das separações.

Mais do que reduzir imposto ou evitar autuações, conversar sobre finanças é investir na saúde do vínculo. Como juiz de paz, acompanho de perto histórias que começam no afeto, mas que, muitas vezes, esbarram na ausência de diálogo sobre o que também sustenta a vida em comum: as finanças. O casamento civil é, antes de tudo, uma manifestação de vontade que produz efeitos concretos, inclusive perante o Fisco. Ignorar essa dimensão não é apenas um descuido, pode ser o início de conflitos evitáveis.

 

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Por Opinião
postado em 12/05/2026 06:00
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