
Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)
O mapa-múndi não é mais a soma de países independentes, cada um com a própria cor; a globalização transformou cada país em um pedaço do mundo, com interesses entrelaçados. Mas a política continua por país. Os líderes ficam perplexos porque seus países são pedaços do mundo, seus habitantes vivem problemas globais, mas seus eleitores continuam nacionais na defesa dos interesses do seu país no presente. Embora estejam entrelaçados pela crise ecológica, pressão demográfica e drama social, seus líderes não têm propostas que atendam aos interesses específicos de seus eleitores e ofereçam solução para os problemas globais. Diferentemente do que ocorria até algumas décadas atrás, a democracia nacional hoje se opõe ao humanismo planetário. A Europa se adaptou ampliando suas fronteiras formando a Comunidade Econômica Europeia, mas tratando os habitantes dos demais países como imigrantes indesejáveis, como se fossem invasores. Ao unirem-se, isolaram-se para atender aos desejos dos eleitores europeus, em detrimento dos seres humanos do restante do mundo.
Lula tem sido um raro exemplo de líder que tenta defender ao mesmo tempo os desejos e valores específicos do Brasil sem ignorar os compromissos humanistas com o mundo inteiro. Estadista com dois chapéus: o do país e o da humanidade. Mostrou isso ao liderar a COP30, mas entendendo que o eleitor brasileiro ainda está mais preocupado com o preço da gasolina hoje do que com o nível do mar na próxima década. Apresentou mapa do caminho para abolir o uso de combustíveis fósseis no mundo, mas contraditoriamente atendeu ao interesse do eleitor do Amapá por produção de petróleo na Amazônia. Pode pagar um preço eleitoral quando os interesses locais e imediatos defenderem com vigor a construção de barreiras contra a imigração social dos pobres, muros contra a imigração geográfica de estrangeiros e desregramento da proteção do patrimônio ambiental que pertence aos imigrantes geracionais, que ainda não nasceram.
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Desde a posse de Donald Trump, em nenhum momento Lula deixou de falar com altivez, representando os eleitores brasileiros, e ao mesmo tempo os habitantes do chamado Sul Global, inclusive os pobres dos EUA e da Europa. Enquanto dirigentes, inclusive de grandes países, se apequenavam assustados com as consequências do tarifaço, Lula enfrentou o problema buscando novos mercados e aprovando medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos. Defendeu a soberania nacional, sem deixar de defender os povos do Sul Global. Denunciou o genocídio praticado por Israel contra o povo de Gaza, mesmo diante da pressão dos que acusam de antissemitismo aqueles que criticam especificamente ao atual governo de Israel. Criticou a invasão da Ucrânia sem cair no discurso antirrusso dos membros da Otan. Apoiou a não disseminação de armas nucleares, mas não apoiou o bombardeio ao Irã.
Ainda é cedo para saber se o exemplo do estadismo humanista e planetário de Lula terá sucesso eleitoral suficiente para lhe dar mais um mandato ou se uma eventual derrota impedirá que ele inspire lideranças políticas de outros "pedaços do mundo" a se tornarem lideranças para o mundo inteiro. Mas, desde já, ele marcou a história como um líder planetário, talvez o primeiro a tentar combinar democracia com humanismo. Já é, portanto, um exemplo.
Graças ao seu talento e firmeza, mas sobretudo por ser presidente do Brasil: país que, além do expressivo tamanho, é aquele que mais se parece com o conjunto da atual civilização com seus sucessos e fracassos. Diferentemente de outros países pequenos, mais desenvolvidos ou mais atrasados, os problemas do Brasil são problemas do mundo, e nossas soluções servem para o mundo. Na fronteira cuidamos dos imigrantes venezuelanos, na defesa dos nossos povos primitivos regularizamos os arrozais, e na proteção do meio ambiente enfrentamos garimpeiros e regulamentamos o agronegócio para proteger nossas matas. Com o Bolsa Escola/Família, mostramos como cuidar com humanismo da pressão migratória interna. Daqui pode partir o exemplo da ideia de um Bolsa Família Internacional que, no lugar de barrar imigração com muros, faz desnecessária a emigração graças a uma renda mínima local.
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