ARTIGO

Brasil tem energia limpa; falta desenvolvimento

O problema agora não é apenas gerar mais energia limpa, mas garantir que essa produção seja plenamente utilizada e, sobretudo, transformada em desenvolvimento econômico nas regiões onde ela nasce

Atividades de maior valor agregado não ficam nos locais em que a energia é produzida    -  (crédito: Tibico Brasil/Divulgação BNB)
Atividades de maior valor agregado não ficam nos locais em que a energia é produzida - (crédito: Tibico Brasil/Divulgação BNB)

ERIC FERNANDO BOECK DAZA Especialista em energia limpa, transição energética e mudanças climáticas

A matriz elétrica brasileira fechou 2024 com 88,2% de fontes renováveis, uma das mais limpas do mundo. Grande parte desse avanço tem endereço certo: o Nordeste, que lidera com ampla margem a geração eólica no país e responde pela fatia mais expressiva da expansão renovável da última década. Mas a rede que deveria escoar essa energia não acompanhou esse ritmo. A capacidade de exportação da região ainda está abaixo do necessário para absorver todo o volume projetado de geração, o que limita o aproveitamento pleno dessa vantagem competitiva.

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Sem a expansão adequada das linhas de transmissão, o Brasil desperdiça parte do que produz. Estimativas indicam perdas bilionárias com curtailment, situação em que turbinas são desligadas mesmo com vento e painéis deixam de gerar mesmo com sol. O país já demonstrou capacidade de produzir energia limpa em escala. O problema agora não é apenas gerar mais, mas garantir que essa produção seja plenamente utilizada e, sobretudo, transformada em desenvolvimento econômico nas regiões onde ela nasce.

Esse é o ponto central. A energia é produzida em municípios do semiárido e do Cerrado nordestino, transmitida por longas distâncias e consumida em centros mais industrializados. Enquanto isso, a renda, os empregos qualificados e a atividade de maior valor agregado permanecem concentrados em outras regiões. Ao longo de duas décadas, o Brasil tratou a expansão renovável como política de oferta de energia. Não como estratégia de desenvolvimento territorial.

Estados como Piauí, Bahia e Rio Grande do Norte se destacam na geração eólica, mas seguem com renda domiciliar per capita abaixo da média nacional. Estudos apontam aumento do PIB e dos empregos formais na fase de construção dos parques, mas esse efeito perde força quando as obras terminam. Ou seja, há impulso econômico temporário, mas não necessariamente uma transformação estrutural capaz de sustentar renda, qualificação e dinamismo produtivo no longo prazo.

O problema, portanto, não está na fonte de energia, mas no modelo de implantação. Grandes complexos renováveis geram eletricidade exportável, mas não criam, por si só, cadeias produtivas locais robustas. O país mede com precisão cada megawatt instalado, mas ainda mede pouco quanto dessa energia se converte em renda permanente, inovação, industrialização e capacidade econômica duradoura nos territórios onde é gerada.

É nesse contexto que ganha força uma pergunta incômoda: em vez de transportar energia por milhares de quilômetros, por que não levar a indústria para perto das fontes? Esse conceito, conhecido como powershoring, propõe instalar atividades produtivas em regiões com abundância de energia limpa, barata e disponível. Não se trata apenas de hidrogênio verde ou data centers. A discussão envolve também fertilizantes, amônia verde, processamento mineral, siderurgia de baixo carbono e outras cadeias intensivas em energia.

A demanda existe. Há pedidos de conexão para grandes cargas nas próximas décadas, o que mostra potencial real para novos investimentos produtivos. O que ainda não existe, na mesma escala, é uma política capaz de conectar essa demanda à transformação econômica dos territórios que cedem vento e sol. Hoje, geração, transmissão e atração industrial seguem trajetórias paralelas, com pouca coordenação entre si.

Instrumentos regulatórios já existentes poderiam ser usados de forma mais estratégica. O sinal locacional nas tarifas de transmissão pode ajudar a orientar investimentos para áreas com excedente renovável. O marco do hidrogênio de baixa emissão também abre espaço para agregar valor à produção nacional. Ainda assim, esses mecanismos não vêm sendo articulados como parte de uma política territorial consistente.

A lacuna, portanto, não é de informação. É de decisão política. Falta vincular novos projetos de geração a compromissos concretos de desenvolvimento local. Essa preocupação ainda aparece pouco nos leilões, no licenciamento e na regulação do setor. O Brasil já resolveu uma parte decisiva do desafio global ao construir uma matriz elétrica limpa e competitiva. Agora precisa decidir se continuará exportando energia entre regiões ou se usará essa vantagem para criar prosperidade mais perto de onde ela é produzida. Sem essa virada, o país corre o risco de repetir um padrão histórico: gerar riqueza natural em uma região e capturar seus benefícios em outra.

 


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Por Opinião
postado em 18/05/2026 06:06
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