
A encíclica Magnífica humanitas, lançada por Leão XIV na segunda-feira, é a constatação de que o americano Robert Prevost demonstra genuína preocupação com o avanço da inteligência artificial. Em 12 de maio, quatro dias depois do conclave, participei de uma reunião do papa com jornalistas, na Sala Paulo VI, na Cidade do Vaticano.
Em seu primeiro discurso à imprensa internacional, Leão XIV reconheceu o "imenso potencial" da inteligência artificial, mas advertiu que ela exige "responsabilidade e discernimento para orientar as ferramentas para o bem de todos, a fim de que possam produzir benefícios para a humanidade".
O documento escrito por Leão XIV e inspirado na encíclica Rerum novarum, redigida pelo papa Leão XIII em 1831, traz à luz uma questão que abre leque para uma série de debates éticos e morais. A IA pode ser utilizada para o bem da humanidade, o progresso e o desenvolvimento, mas também para o mal, como estratégia de guerra, manipulação das massas, entre outros pontos.
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Não bastasse isso, a tecnologia coloca em xeque postos de trabalho e pode lançar no desemprego milhões de trabalhadores, ante a perspectiva de que apresenta eficiência, rapidez e soluções mais pragmáticas do que a inteligência humana.
O papa americano expõe inquietações sobre a possibilidade de a IA ser utilizada para reforçar o paradigma tecnocrático e tornar aparentemente justa e normal uma visão anti-humana. O alinhamento com a encíclica de Leão XIII fica claro na reflexão de Prevost sobre o risco de a IA também destacar o poder dos detentores de recursos econômicos, competência e acesso aos dados. "As inovações tecnológicas — entre elas, a inteligência artificial — não são neutras: podem aumentar a participação e a justiça, ou, pelo contrário, agravar desigualdades, controle e exclusão", escreveu Leão XIV.
Como a justiça social tem sido um dos pilares da Igreja Católica ao longo do último século, é compreensível que o pontífice tenha escolhido um tema de tantas nuances como o núcleo de sua encíclica. Não deixa de ser um aviso ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem se mostrado entusiasta da IA.
Afinal, a concentração de poder nas mãos de um governante conhecido pelo comportamento errático e por decisões polêmicas pode transformar a IA em arma letal. Um ponto bastante positivo da Magnifica humanitas, de Leão XIV, está no fato de pautar a tecnologia na imprensa e nos debates sociais.
É inegável que a inteligência artificial veio para ficar. Seria utopia acreditar que dogmas religiosos consigam frear a tecnologia. Mas é possível adaptar essa ferramenta para que a sociedade extraia dela sempre o melhor. Que seja uma ferramenta empregada como auxiliar, não como adversária ou inimiga. Também considero importante criar legislação específica que coiba excessos ou impeça o uso da IA para impor a força brutal do capital ou os desvarios de chefes de Estado que se achem acima do bem e do mal.

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