Roberto Perosa — presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), foi secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária
O setor de carne bovina brasileiro entra no segundo trimestre de 2026 já sob efeito direto de um novo ambiente internacional. Não se trata mais de expectativa de risco. O impacto está em curso.
Depois de dois anos consecutivos de resultados históricos, o Brasil consolidou sua posição como principal fornecedor internacional de carne bovina. Em 2025, produzimos 12,35 milhões de toneladas e exportamos cerca de 3,5 milhões, respondendo por aproximadamente 25% do comércio internacional.
Esse desempenho foi sustentado por ganhos consistentes de produtividade. O rebanho brasileiro segue como o maior comercial do mundo, enquanto a intensificação dos sistemas produtivos elevou a taxa de desfrute para 24,4% e ampliou a eficiência no uso da terra, mesmo com redução da área de pastagens. A pecuária está presente em mais de 5 mil municípios e tem papel direto na geração de renda, emprego e atividade econômica no interior do país.
O ponto de inflexão não está dentro da porteira. Está no mercado. A imposição de cotas pela China neste ano, destino de 47,8% das exportações brasileiras, deixou de ser uma incerteza e passou a ser uma variável concreta de gestão. Com parcela relevante da cota já comprometida e perspectiva de esgotamento antecipado, o setor passa a operar com foco no pós-China.
A pergunta mudou. De quanto exportar para a China para como administrar o excedente. Estamos falando de um volume expressivo, construído ao longo dos últimos anos com base em previsibilidade de demanda. Em 2025, as exportações cresceram mais de 20% em volume, ampliando a dependência de grandes mercados. A redução desse fluxo não encontra, no curto prazo, mercados substitutos na mesma escala.
Esse descompasso cria um risco claro. Aceleração de embarques no primeiro semestre, seguida de pressão no segundo. Sem previsibilidade, o impacto tende a se refletir na formação de preços e nas margens ao longo da cadeia. E é importante ser direto: esse impacto ainda não apareceu por completo. Só temos uma certeza, ele virá.
Ao mesmo tempo, o componente geopolítico ganhou peso definitivo. O aumento dos custos logísticos, impulsionado por tensões em rotas estratégicas, já afeta a competitividade do produto brasileiro. O frete deixou de ser apenas custo operacional e passou a ser variável de risco, com efeito imediato em um setor de alto volume e margens ajustadas.
Esse cenário se intensifica com o agravamento de conflitos no Oriente Médio. A elevação dos prêmios de seguro marítimo, a instabilidade em rotas e a possibilidade de reprogramação de compras ampliam a volatilidade e reduzem a previsibilidade das operações.
Além disso, o uso de instrumentos comerciais como salvaguardas, tarifas e investigações segue em expansão. O comércio internacional de alimentos está mais sensível, mais reativo e menos previsível. Hoje, produzir bem é pré-requisito. Competir exige estratégia.
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Apesar desse ambiente mais complexo, os fundamentos seguem sólidos. Há um deficit global de carne bovina em formação. O Brasil assumiu, em 2025, a posição de maior produtor mundial, enquanto os Estados Unidos enfrentam retração estrutural do rebanho. Ao mesmo tempo, a demanda internacional segue crescente, especialmente na Ásia. A China consome mais de 11 milhões de toneladas ao ano, e há um deficit próximo de 1,6 milhão de toneladas em economias relevantes.
O desafio, portanto, não é de demanda, mas de transição. A diversificação de destinos deixou de ser agenda de médio prazo e passou a ser necessidade operacional. Em 2025, a carne bovina brasileira chegou a 177 países, evidenciando ampliação de mercados. Ainda assim, a absorção de grandes volumes exige tempo.
Não existe substituição imediata para a China. Existe construção de mercado. O avanço das negociações para abertura de mercados como Japão, Coreia do Sul e Turquia, a consolidação do Vietnã e o crescimento em países como a Indonésia ganham ainda mais relevância.
Mas esses movimentos não ocorrem na mesma velocidade em que grandes compradores ajustam sua demanda. Por isso, a agenda estratégica precisa avançar em duas frentes simultâneas: ampliação de mercados e gestão de risco.
A pecuária brasileira evoluiu de forma consistente nas últimas décadas. A produção cresceu mais de 40% desde 2005, com ganhos de eficiência, tecnologia e padronização. Agora, entra em uma fase mais exigente. Eficiência sem estratégia não sustenta crescimento.
O jogo do comércio internacional mudou. E o Brasil, como protagonista, precisa se adaptar com a mesma velocidade com que cresceu. O jogo está do nosso lado, mas não se ganha no automático. É preciso jogar na racionalidade, com base em números e com visão estratégica.
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