Mozart Neves Ramos — titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da UFPE
Neste artigo, vou procurar fazer uma análise das transformações pedagógicas, tecnológicas e curriculares ocorridas na era da interdependência — que, de acordo com a inteligência artificial (IA), refere-se ao atual momento histórico global, caracterizado pela dependência mútua entre nações, economias, sociedades e tecnologias, em que as ações de um ator (país, empresa ou indivíduo) impactam diretamente os outros. Estamos experimentando com muita clareza esse conceito na guerra dos Estados Unidos com o Irã.
Esta análise está sedimentada em quatro eixos: reconfiguração da identidade do professor; a IA como mediadora tecnológica; reconfiguração curricular e protagonismo; e inovação espacial e o futuro da escola.
Para um tema tão complexo e desafiador, fui buscar o apoio da IA — alinhando-o com o meu pensamento crítico e minha visão de futuro —, cuja extensão é, inclusive, difícil de medir. Segundo o cientista social britânico Guy Neave, pensar o futuro é sempre uma atividade arriscada — como os profetas e os visionários aprenderam à própria custa: se o tempo da previsão é demasiado curto, podemos cair na desconfortável situação de enfrentar a contradição da nossa visão de uma realidade pouco respeitável; se o tempo é demasiado longo, a impaciência natural dos profanos acabará por minar o respeito pelo mais entusiasta dos visionários.
Vamos começar pelo primeiro eixo, a identidade docente, que evolui definitivamente da figura de transmissor de conteúdos para a de um educador global — com foco no desenvolvimento de competências e no trabalho interconectado em rede —, que se torna um arquiteto de ambientes transdisciplinares. É hora de dar adeus ao conteúdo padronizado, ao trabalho isolado em sala de aula e às avaliações baseadas em memorização.
O segundo eixo — relativo ao uso da IA — vai ser decisivo para o sucesso desse primeiro. A IA não vai substituir o professor, mas apenas ajudar aqueles que souberem usá-la como mediadora dinâmica, devolvendo a esse professor o tempo necessário para ser criativo e inovador, pois o ganho de produtividade é cinco vezes maior. Segundo Hans Moravec, conceituado cientista austríaco-canadense, o que é instintivo e "fácil" para um ser humano é extremamente difícil para uma máquina, e tarefas que exigem alto esforço mental de um ser humano (como cálculos avançados) são "fáceis" e instantâneas para a IA — conceito chamado de Paradoxo de Moravec.
O terceiro eixo tem a ver com o fim do currículo "tamanho único". Vamos sair de trajetórias lineares e da memorização em massa para um mundo em que as formações terão uma espinha dorsal comum integrada a uma parte diversificada vinculada ao projeto de vida — em que cada pessoa é tratada como uma pessoa, e não mais como uma "média".
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Por fim, o quarto eixo: inovação espacial e o futuro da escola. Mas o que é inovação espacial? Refere-se ao conjunto de avanços tecnológicos, científicos e modelos de negócios que impulsionam a exploração do universo e a economia orbital. Essa última engloba a produção, o lançamento, a operação de satélites e a utilização de dados espaciais para criar valor econômico na superfície terrestre. Isso significa que vamos precisar repensar pessoas, lugares e tempos. E aqui está o futuro da escola.
Repensar pessoas significa maximizar a expertise do educador, reduzir tarefas repetitivas e promover a colaboração transdisciplinar em vez do ensino isolado. Repensar lugares significa substituir salas de aula estáticas por ambientes multifuncionais e flexíveis. Repensar tempos significa abolir o cronograma engessado e adotar modelos de aprendizagem híbridos que permitam a personalização do ritmo de estudo de cada aluno - mas todos devem aprender e desenvolver o que é esperado em cada etapa e em cada ano escolar.
Isso quer dizer que as fronteiras da escola não são mais limites físicos, mas horizontes de colaboração entre a inovação tecnológica e a ética humana. Certa vez em que estive em Singapura, numa conversa com o renomado professor Lee Kong, disse-lhe que as coisas num país de 722km2 — metade da cidade de São Paulo — deviam ser relativamente mais simples. De imediato, ele me retrucou: "Não, o senhor está enganado". E me fez ver um mapa-múndi em cuja extensão havia pequenos pontos luminosos espalhados em cidades consideradas estratégicas para o desenvolvimento sustentável de Singapura — espécie de escritórios locais. E completou: "Está vendo? Singapura é do tamanho do mundo!".
* Este artigo é dedicado à memória do professor Lee Kong, peça-chave na reforma que tornou o sistema educacional de Singapura um dos melhores do mundo.
