ARTIGO

Bumba meu Boi

Mas o São João do Maranhão — o melhor do mundo! — já está ensaiando, rompendo as madrugadas com o nosso Bumba meu Boi, e eu já me preparo para vê-lo em junho. Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro

José Sarney ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras 

Quando maio aparece, no Nordeste é recebido não apenas como o mês das noivas, mas principalmente como o tempo que antecede o São João. E logo começam a esquentar os tambores e ensaiar as brincadeiras que fazem do nosso São João a festa mais popular da região. Não se sabe bem como começou, de onde veio, mas sabe-se como foi absorvendo o momento em cada ano e incorporando novos estilos e outras brincadeiras — como são chamadas as diversas apresentações —, de tal modo que as danças portuguesas estão sendo também apresentadas como folguedos populares do São João, principalmente no Maranhão.

Há por aqui um provérbio, que corre no linguajar do povo, que diz: "Abril, chuvas mil; maio, trovão e raio". O certo é que, sem qualquer base científica, acontece aqui esses fenômenos meteorológicos. Eu aqui, nesta semana, fiquei perturbado com a grande quantidade de trovões e raios, e um deles me deu um grande susto, caindo num terreno bem perto da minha casa.

Mas do que eu quero tratar mesmo é do São João do Maranhão, que chega depois das chuvas e dos raios. É considerado pelos maranhenses como o melhor do país e, como só no Brasil essa festa é dominante, acrescentam: "É o melhor do mundo!"

Modéstia à parte, a verdade é que o Bumba meu Boi do Maranhão — que é a cara do nosso São João — foi reconhecido pela Unesco (o maior órgão de cultura das Nações Unidas), em dezembro de 2019, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Assim, o Maranhão, com justa autoridade, reivindica ser a pátria brasileira do Bumba meu Boi.

A verdade é que em nenhum outro lugar ele se apresenta com uma riqueza musical — cancioneiros, sotaques, fantasias, instrumentos, variedades de apresentação — como a de nosso estado. Até mesmo os cordões que existem em outras partes do nosso país foram levados por maranhenses, conhecedores do auto e do ritmo desse folguedo popular. 

Vale citar que o Boi de Parintins — que tanto sucesso faz hoje no Amazonas, derramando-se pelo Brasil com o nome de Boi-Bumbá (nome como também é conhecido no Piauí) — foi levado por dois maranhenses. Hoje, a festa está competindo com o carnaval na famosa disputa entre os bois Caprichoso e Garantido. Já em São Paulo, no Centro Nordestino — fundado pelo saudoso deputado José de Abreu e, hoje, administrado com grande sucesso por sua filha, a deputada Renata Abreu, herdeira do talento realizador do pai —, também existe uma manifestação do Bumba meu Boi, mantida por maranhenses. 

Em Brasília tinha, e ainda tem, o Boi do Teodoro, do falecido Teodoro, que eu conheci, a quem sempre dava apoio para realizar o Bumba meu Boi na Ceilândia e no Núcleo Bandeirante, naquele tempo chamado Cidade Livre. No estado de Santa Catarina, existe uma festividade chamada Boi de Mamão, que em nada se assemelha à nossa, embora também teria vindo do Açores, segundo a tradição local.

Muitos pesquisadores estudaram o tema, e Carlos Lima, talvez o mais minucioso deles, tem um trabalho profundo em que levanta todas as hipóteses da origem dos folguedos do boi. Certo é que os primeiros habitantes portugueses do Maranhão vieram dos Açores, aquelas ilhas lendárias e heroicas do tempo das navegações. Simão Estácio da Silveira, um propagador das riquezas maranhenses, escreveu um pequeno opúsculo para trazer colonos para esta terra: "Das terras que Portugal conquistou, o melhor é o Brasil / Mas o Maranhão é o Brasil melhor". Nessa época, era governador do Maranhão o sobrinho do Marquês de Pombal, Joaquim de Melo e Póvoas; governara o Grão-Pará e Maranhão, anteriormente, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês e, portanto, tio de Póvoas.

Mas o São João do Maranhão — o melhor do mundo! — já está ensaiando, rompendo as madrugadas com o nosso Bumba meu Boi, e eu já me preparo para vê-lo em junho. Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro.

Caso você queira visitar o século 19, venha assistir ao São João do Maranhão e ver a beleza dos folguedos populares dos nossos antepassados, na magia do Bumba meu Boi.

Lá nos esperam São João, São Pedro, São Paulo, Santo Antônio e São Marçal (este uma tradição única das festas de junho no Maranhão). Venha e seja compadre na fogueira de um amigo.

 

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