ARTIGO

Política e negócios

O escândalo Master é o retrato bem desenhado das relações do mundo econômico com a política no Brasil. Se for levada às últimas consequências, a investigação desmontará biografias na direita e na esquerda

André Gustavo Stumpf jornalista 

Ciro Nogueira, presidente do Progressista, senador pelo Piauí, chefe da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro, entre agosto de 2021 e dezembro de 2022, expoente do Centrão, estava no bolso de Daniel Vorcaro. Recebia mesada de R$ 300 mil (R$ 500 mil?) para ajustar os interesses do banco ao processo político. Foi ele o autor de projeto de emenda — não aprovado — elevando de R$ 250 mil para um milhão a responsabilidade do Fundo Garantidor de Créditos, o que daria mais folga para o banco continuar a vender títulos falsos, cujo prejuízo seria coberto por outras instituições financeiras. Uma esperteza bancária, coberta por esperteza político-partidário. E tudo isso tem valor. O representante do Piauí cobrou caro, mas foi desmascarado pela Polícia Federal. Está na mira do Supremo Tribunal Federal.

É o escândalo do Banco Master e do Banco de Brasília (BRB). Um contaminou o outro. Paulo Henrique Costa, que sonhou desembarcar na Faria Lima precedido de boa fama, costumava lembrar que assumiu a presidência do Banco de Brasília depois que a polícia saiu das dependências da instituição, levando junto dirigentes presos. Ele, que veio da Caixa Econômica Federal, saneou o banco, uma espécie de tesouraria do Governo do Distrito Federal, e costumava a agradar o governador e alguns apaniguados. Mas, o BRB, de repente, mudou: começou a anunciar na camisa do Flamengo, ao mesmo tempo criou cartão de crédito com a marca do clube carioca. Foi um sucesso.

Apesar de todos os avisos do Banco Central de que era negócio perigoso, arriscado e cheio de armadilhas, o BRB colocou dinheiro no Banco Master. A Polícia Federal  mergulhou no assunto. Gente graúda, como o representante do Piauí, aparece nessa investigação que já se tornou embaraçosa até para ministro do Supremo Tribunal Federal. Camaradagem é algo que não existe nas relações financeiras. Pessoas importantes ganharam muito com as ações da direção do Banco Master. E com a maneira de fazer negócios, impetuosa e debochada, de Daniel Vorcaro. Afagos milionários ocorreram em vários níveis na política.

O Banco Master viveu dos contatos políticos de sua direção. Ele recebeu investimentos de fundos de pensão de funcionários públicos de prefeituras de 18 cidades brasileiras. A mais comprometida delas é a do Rio de Janeiro, cujo instituto de pensões e aposentadorias colocou R$ 970 milhões no banco. O Conselho Consultivo da instituição é um desfile de nomes conhecidos da política nacional. Ricardo Lewandowski deixou o STF em agosto de 23 e ganhou um assento no colegiado. Ficou lá até abril de 2024, quando assumiu o Ministério da Justiça, que mandou prender Daniel Vorcaro, o proprietário do Master, quando ele tentava deixar o país a bordo de seu jato Falcon Dassault.

Durante este tempo, foi auxiliado pelo filho Enrique Lewandowski, depois substituído por Viviane Bari. Quem assumiu o lugar de Lewandowski foi Henrique Meirelles, ex-presidente do BC de Lula e ex-ministro da Fazenda de Michel Temer, que também foi contratado por Vorcaro como consultor. O comitê era formado ainda por Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda de Lula, e Gustavo Loyola, ex-presidente do BC de Itamar Franco e Fernando Henrique. Guido Mantega levou Vorcaro a Lula, em audiência no Palácio do Planalto.

Foram tantas as investidas do Banco Master e de seu principal controlador em busca de cumplicidade na Praça dos Três Poderes e na avenida Faria Lima que a operação destinada a prender Daniel Vorcaro e decretar a liquidação do banco chegou a ser considerada impossível. A Polícia Federal agiu bem e rapidamente. O processo está nas mãos do ministro André Mendonça, terrivelmente evangélico na definição de quem o indicou para o STF, que não parece disposto a minimizar o ocorrido. Ao contrário, coloca as responsabilidades em cada um dos acusados.

Essa é a linha de investigação que, se for levada às últimas consequências, desmontará biografias na direita e na esquerda, no governo e na oposição. Paulo Henrique Costa, afastado do cargo, preso, ameaça também com delação premiada. Ele repetiu a história: deixou a presidência do BRB com a polícia na porta. Mas, desta vez, ele foi para trás das grades.

O escândalo Master é o retrato bem desenhado das relações do mundo econômico com a política no Brasil. É assim que funciona na prática o capitalismo no país, apesar da ação das entidades regulatórias do sistema. Tempos atrás, o falecido e saudoso senador Severo Gomes (MDB-SP) dizia ser necessário estatizar o Banco Central. Ou seja, proteger o erário da ação predatória dos grandes investidores. A providência é necessária até hoje.  

 

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