ARTIGO

A PeNSE e os nossos filhos, vamos pensar?

O dado mais celebrado nessa edição é a queda consistente no consumo de substâncias que historicamente assombram as famílias: o álcool e as drogas ilícitas

Andréa Jácomopediatra, professora de medicina do Ceub, coordenadora do Departamento de Pediatria Ambulatorial da Sociedade de Pediatria do DF 

No fim de março, foram publicados os dados da 5ª edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) referentes ao ano de 2024, envolvendo mais de 118 mil adolescentes de cerca de 4 mil escolas públicas e privadas do nosso país. Os resultados são como um grande checape da saúde coletiva dos jovens entre 13 e 17 anos. O levantamento apresenta um retrato complexo da realidade infantojuvenil, trazendo notícias de alívio, mas também acendendo alertas vermelhos que não podem ser ignorados, seja na rotina familiar, seja nos consultórios, seja nas emergências hospitalares.

O dado mais celebrado nessa edição é a queda consistente no consumo de substâncias que historicamente assombram as famílias: o álcool e as drogas ilícitas. Ver a redução na experimentação de bebidas alcoólicas e o recuo no uso de drogas entre estudantes é uma vitória da prevenção e da conscientização. O desenvolvimento cerebral na adolescência é marcado por processos críticos, como a mielinização e a poda sináptica, que otimizam a comunicação entre os neurônios; quanto mais adiarmos o contato com substâncias nocivas, mais protegemos a maturação do córtex pré-frontal — responsável pelas decisões e controle de impulsos — e garantimos a integridade cognitiva e emocional desses jovens.

A pesquisa revela, entretanto, que o tabagismo mudou de face: enquanto o cigarro convencional cai em desuso, o cigarro eletrônico avançou expressivamente. Cerca de 29,6% dos estudantes já experimentaram esses dispositivos, frequentemente atraídos por aromas frutados e por uma falsa sensação de segurança amplificada pela divulgação que visa o lucro das empresas. É preciso clareza e firmeza nesse ponto: esses aparelhos entregam doses elevadas de nicotina e substâncias tóxicas diretamente nos pulmões em formação, o que favorece a dependência química precoce sob uma roupagem tecnológica que não deixa cheiro nem pista para os pais.

Outro ponto que exige nossa atenção imediata é o cenário da saúde mental. A pesquisa aponta que 19,8% dos estudantes relatam que a vida não vale a pena ser vivida e 23,4% apresentam sintomas de transtornos de ansiedade ou depressão. O dado é especialmente crítico entre as meninas: o percentual daquelas que sentem que a vida não vale a pena ou que experimentam tristeza profunda é quase o dobro em relação aos meninos. Esses indicadores são um alerta sobre o sofrimento psíquico enfrentado pelos jovens, reforçando a necessidade de políticas públicas e redes de apoio familiar que priorizem o bem-estar emocional nessa fase da vida.

A pesquisa também trouxe luz a questões de segurança e vulnerabilidade, revelando que o "bullying" saltou para 27,2% e ganha cada vez mais proporções globais com a divulgação rápida e ampla pela rede mundial de computadores, presente na maioria dos lares e também nas mãos dos jovens brasileiros. Os dados sobre violência doméstica são alarmantes: 20% dos jovens relatam ter sofrido violência física dentro de casa no último ano. Esses indicadores, junto aos casos de violência sexual, mostram que a escola e o lar precisam ser, mais do que nunca, espaços de escuta ativa, já que o isolamento e a irritabilidade excessiva muitas vezes são sintomas de traumas que a pesquisa agora quantifica em escala nacional.

Outra nota de esperança da pesquisa aponta que os adolescentes estão postergando a iniciação sexual e que há uma regulação maior na venda de alimentos ultraprocessados nas escolas. Isso mostra que políticas públicas e diálogos em família funcionam. O jovem de 2026 é mais conectado, sim, mas também está no centro de uma transição de hábitos que podemos moldar com informação de qualidade e presença afetiva.

Para nós, mães, pais, pediatras e educadores, o desafio é transformar esses números em ação. Não basta saber que o consumo de álcool caiu e o de cigarro eletrônico subiu. Não basta lamentar a tristeza das meninas; precisamos fortalecer sua autoestima contra algoritmos predatórios. A PeNSE aponta o caminho, cabe a nós, com leveza para acolher e firmeza para orientar, caminhar ao lado deles nessa travessia tão bonita e desafiadora que é a adolescência.

 

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