João Pedro Resende de Carvalho
postado em 10/05/2026 06:00 / atualizado em 10/05/2026 06:00
Denise e Solange Cianni ( loira ) com os filhos Thiago e Beto na Escola Canarinho da Asa Norte. - (crédito: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Toda semana, uma fadinha e um príncipe aparecem na Escola Canarinho. Chegam de uniforme, param nas salas, deixam as crianças subirem neles. São reconhecidos na rua, nas missas de domingo, no supermercado. Hoje com 93 e 98 anos, respectivamente, Ivete e Humberto Cianni, fundaram a escola em 1974. Os netos Thiago e Beto tocam o dia a dia há mais de uma década — e, ainda assim, são apresentados, nos corredores, como “o neto da fadinha”
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Ivete veio do Rio de Janeiro com 15 anos de experiência no ensino especial da rede pública. Quando chegou a Brasília — trazida pela transferência do marido pelo Banco do Brasil —, trouxe um hábito que outras escolas não tinham: acolher crianças que ninguém queria. Muito antes da lei de inclusão existir, recebia as que ficavam à margem. “As mães começaram a comentar”, lembra Denise, filha do meio. “E assim a escola foi crescendo.” Humberto chegou como bancário e ficou como sócio. Quando percebeu que a casinha estava enchendo, alugou um prédio maior; depois, hipotecou o apartamento para construir a sede própria.
As três filhas — Solange, Denise, e Simone — foram virando sócias como a maioria dos filhos nessa reportagem: devagar, ao ganharem experiência, sem combinar. Solange tinha 14 anos e já queria ser professora. Simone trouxe a dança e o balé. Denise ficou na coordenação pedagógica. “A mamãe foi nos preparando”, diz Denise. “Deu uma educação muito mais valiosa que uma faculdade.”
A divisão de trabalho se definiu naturalmente. Mas, aqui, diferentemente das outras três famílias da reportagem, a sociedade foi para o papel. Quando os netos entraram na gestão, a família criou um documento de direitos e deveres para a segunda e a terceira geração: critérios para férias, afastamentos, decisões compartilhadas. “A gente aprendeu na educação que crianças com critérios claros ficam com a mente ordenada”, explica Solange. “Com adulto é a mesma coisa.”
Os netos chegaram com resistência das mães — não delas para com eles, mas o contrário. A mãe do Thiago foi direta: “Escolhe qualquer coisa, menos o Canarinho. Eu quero que você tenha uma boa vida.” Ele entrou assim mesmo. Beto era músico, e ainda toca em trio. Também ficou. “A gente vai se apaixonando pela educação”, diz. A prova de que a terceira geração estava pronta veio em 2020. Com a pandemia, metade das famílias cancelou a matrícula. Os meninos se recusaram a fechar. Montaram aulas no YouTube, organizaram um drive-thru de Páscoa com professoras fantasiadas. As mães choravam na janela. Nenhum funcionário foi demitido. “Ali a gente entendeu que eles estavam prontos”, diz Solange.
A escola tem hoje duas unidades — uma na Asa Sul e outra na Asa Norte — e não cresceu além disso por escolha. Thiago chegou a propor o modelo de fraqnuia, mas a família não quis. Ele entendeu. “Prefiro fazer um trabalho de qualidade com os donos presentes a ter 20 escolas e ficar num escritório vendo indicadores.” Em uma camiseta, em um livrinho entregue a cada família na matrícula, está a frase que Ivete carrega desde o começo: “A criança feliz descobre o mundo brincando.” Toda semana, a fadinha e o príncipe voltam. Não para ver os netos. Para ver as crianças.
Estagiário sob a supervisão de Ana Sá*