Visão do Correio

O alto preço do impasse

Um congelamento por tempo indeterminado no Oriente Médio carrega potencial de dano amplo. É a incerteza, não a ameaça declarada, que contamina os mercados

Quando dois adversários decidem, simultaneamente, não apertar o gatilho, o silêncio costuma ser lido e assumido como prudência das duas partes. Mas raramente é. Na maior parte das vezes, é apenas o intervalo entre duas rodadas de um jogo que nenhum dos lados tem condições ou interesse de encerrar. É nesse intervalo que Estados Unidos e Irã parecem ter se instalado nas últimas semanas: declarações contidas da Casa Branca, contenção militar iraniana e uma estabilidade mínima no Estreito de Ormuz que serve de moeda de troca tácita entre as partes. O resultado, apesar de causar menos apreensão, não é paz. É a gestão negociada da tensão, e ela tem um custo que nenhum dos dois lados está disposto a pagar do próprio bolso.

Para a administração americana, conduzida pelas sinalizações de Donald Trump e de seu secretário de Estado, Marco Rubio, a equação é estritamente utilitária. Um mergulho em operações militares abertas traria desarranjos imediatos nas cadeias de suprimento e, consequentemente, nas bombas de combustível. Em um cenário em que a inflação reverbera no bolso do eleitor, qualquer choque no preço da energia ameaça o capital político do governo. A estratégia de prolongar o estrangulamento financeiro do Estado iraniano, apostando na exaustão de seus recursos no médio prazo, sem fazer qualquer concessão formal na frente nuclear, oferece a Washington uma imagem de firmeza sem os custos políticos e humanos imprevisíveis de operações terrestres.

Mas a aposta na asfixia econômica como substituta da resolução definitiva raramente alcança seu objetivo primário no tempo desejado. Regimes autoritários sob embargo costumam repassar o custo das privações à população civil enquanto blindam suas estruturas de controle — vide o que ocorre em Cuba desde os anos 1960. Para o regime em Teerã, a manutenção dessa tensão calculada, sem o disparo de mísseis ocidentais, é altamente funcional: concede às autoridades locais a margem de tempo necessária para pacificar disputas internas de poder, lidar com o desgaste institucional e reagrupar sua influência regional.

O problema central dessa acomodação velada não é a eventual imposição iraniana, mas a paralisia que o impasse em si projeta sobre o mundo. Conflitos congelados têm precedentes históricos longos e custosos: a Península Coreana vive há sete décadas sob armistício formal, com dois Estados tecnicamente em guerra, e o resultado passa longe da estabilidade, com uma suspensão indefinida da normalidade, com custos econômicos, diplomáticos e humanitários que se acumulam silenciosamente. 

Um congelamento por tempo indeterminado no Oriente Médio, região que concentra parte decisiva das reservas energéticas do planeta, carrega potencial de dano muito mais amplo. O frete sobe, os seguros encarecem e os contratos de longo prazo se tornam mais caros. Não porque o Irã cobre pedágio, mas porque nenhum agente econômico precifica bem o imprevisível. É a incerteza, não a ameaça declarada, que contamina os mercados. E são as economias emergentes, com menor capacidade de absorção de choques, as primeiras a sentir esse custo na forma de inflação importada, encarecimento do transporte e pressão sobre o poder de compra das populações mais vulneráveis.

Enquanto a diplomacia real for substituída por um compasso de espera calibrado por cronogramas eleitorais e conveniências domésticas, a estabilidade do Oriente Médio continuará dependendo de que todos os atores acertem o cálculo ao mesmo tempo, indefinidamente. A história mostra que esse tipo de acerto, mais cedo ou mais tarde, falha.

 

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