ARTIGO

A Itália na crise de Ormuz: diplomacia, missões navais e segurança alimentar

A Itália continua a sustentar que a via diplomática permanece a única possível, e reitera que Teerã não pode dotar-se de armas nucleares nem sistemas de mísseis capazes de desestabilizar ainda mais a região

ANTONIO TAJANI - Vice-primeiro-ministro da Itália

Desde o início da guerra entre o Irã e os Estados Unidos, a Itália atuou em conjunto com os parceiros europeus, o G7 e os organismos multilaterais para incentivar a cessação das hostilidades e assegurar a reabertura do Estreito de Hormuz. O bloqueio de Ormuz é um choque global destinado a afetar a segurança energética e a competitividade industrial, um risco relevante para um país exportador como a Itália.

A insegurança das rotas comerciais e a alta do custo da energia já começaram a produzir efeitos sobre as famílias e empresas, e são também alarmantes as consequências para os países mais frágeis, pois pelo Estreito de Ormuz passam cerca de 30% das exportações mundiais de fertilizantes, fundamentais para a segurança alimentar de muitas economias. 

Por esse motivo, no início de maio convocamos uma reunião junto com o meu homólogo croata — presidente do EUMEDGroup — convidando 30 países, além da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), para lançar a Coalizão de Roma para a Segurança Alimentar e o Acesso aos Fertilizantes.

A crise de Ormuz é o reflexo de um conflito mais amplo, enraizado em décadas de tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã. Nesse cenário, continuamos a sustentar que a via diplomática permanece a única possível, e reiteramos que Teerã não pode dotar-se de armas nucleares nem sistemas de mísseis capazes de desestabilizar ainda mais a região.

Não podemos apagar a memória da repressão dos protestos juvenis no Irã e dos ataques que Teerã lançou, que condenamos com firmeza, expressando solidariedade aos Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Omã e Arábia Saudita.

Na esfera diplomática mantive contato constante com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que encontrei em Roma nos últimos dias. Concordamos sobre a necessidade de preservar o vínculo transatlântico e de trabalhar conjuntamente pela paz e estabilidade internacional, confirmando o apoio às negociações em curso no Paquistão, fundamentais para manter aberta uma perspectiva diplomática.

Dialoguei também com o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, enfatizando a necessidade de que Teerã negocie "em boa-fé" e retome a colaboração com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), reconstruindo relações positivas com os países do Golfo.

Nas últimas semanas, viajei à China, onde solicitei ao ministro Wang Yi um papel mais ativo de Pequim na mediação com Teerã. Roma mantém também um canal direto com os parceiros regionais do Golfo, considerados interlocutores indispensáveis para qualquer solução diplomática duradoura e para a liberdade de navegação no Estreito.

No plano operacional, a Itália está pronta para disponibilizar a experiência adquirida nas missões navais europeias no Mar Vermelho, no Oceano Índico e no Mediterrâneo e consideramos necessário reforçar a missão europeia Aspides. Na missão multilateral que será lançada no Estreito de Ormuz, a Itália poderá contribuir para operações de desminagem e para a segurança da navegação comercial.

Consideramos, no entanto, que uma paz duradoura no Oriente Médio não pode prescindir da estabilidade do Líbano. O governo italiano apoia o diálogo entre Israel e Beirute mediado pelos Estados Unidos e ofereceu disponibilidade para sediar tratativas diretas entre as partes. Durante a missão ao Líbano, no último mês de abril, reafirmei ao presidente Joseph Aoun o apoio italiano a um caminho que transforme a atual trégua em um verdadeiro processo de paz.

Washington e Bruxelas enxergam Roma como um ator cada vez mais central para reforçar a capacidade estatal de Beirute. Mantemos também elevada atenção à segurança dos nossos militares envolvidos na missão Unifil e na missão bilateral Mibil e não deixaremos de pedir proteção para as comunidades cristãs no país, após as violências de colonos extremistas israelenses contra vilarejos do sul do Líbano, inclusive aqueles de maioria cristã.

O tema das violências dos colonos extremistas israelenses foi tratado em Bruxelas, onde foram recentemente aprovadas novas e severas sanções contra eles. Na mesma sessão, aprovamos sanções adicionais contra os terroristas do Hamas, cujo desarmamento continua sendo prioridade absoluta. A Itália segue monitorando atentamente a situação em Gaza e nos territórios palestinos e, nessa perspectiva, cabe destacar a chegada à Itália, nestes dias, de 72 estudantes palestinos beneficiários de bolsas de estudo em universidades italianas: um investimento pela formação da futura classe dirigente palestina.

 


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