Visão do Correio

China, EUA e o alerta de Tucídides

A falência do diálogo entre as duas potências não é uma hipótese distante, mas um processo de ruptura em curso que ameaça qualquer vestígio de estabilidade global.

 Donald Trump é recebido por Xi Jinping na entrada do Grande Salão do Povo, na Praça da Paz Celestial -  (crédito: Brendan SMIALOWSKI/AFP)
 Donald Trump é recebido por Xi Jinping na entrada do Grande Salão do Povo, na Praça da Paz Celestial - (crédito: Brendan SMIALOWSKI/AFP)

Há 2.500 anos, o historiador grego Tucídides observou que a Guerra do Peloponeso, na Grécia Antiga, não foi causada por um incidente específico, mas simplesmente pela ascensão inevitável de uma potência que ameaçava a hegemonia da outra. "A ascensão de Atenas e o medo que isso provocou em Esparta tornaram a guerra inevitável", disse. A lição atravessou os séculos e ganhou nome contemporâneo: a "Armadilha de Tucídides" descreve o risco estrutural de conflito quando uma força emergente desafia a estabelecida.

Na cúpula realizada nesta quinta-feira em Pequim, o líder chinês Xi Jinping colocou essa armadilha explicitamente na mesa ao questionar o presidente Donald Trump se China e Estados Unidos conseguirão escapar dela. Não foi digressão acadêmica. Foi o reconhecimento de que a falência do diálogo entre as duas potências não é uma hipótese distante, mas um processo de ruptura em curso que ameaça qualquer vestígio de estabilidade global.

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O paralelo entre Atenas e Esparta é evidente no atrito entre China e EUA. O conflito já se materializa diariamente na inflação persistente, no custo dos combustíveis e na volatilidade cambial que penaliza o poder de compra das populações. A guerra tarifária permanente, o bloqueio cruzado no mercado de semicondutores e a reconfiguração forçada das cadeias de suprimentos transferem uma fatura altíssima, impiedosamente, aos países em desenvolvimento. Enquanto Washington e Pequim jogam xadrez pela supremacia tecnológica e militar, as nações do Sul Global enfrentam pressões severas para escolher um lado, sacrificando segurança alimentar e energética em nome de um alinhamento que não lhes oferece garantia alguma.

O histórico recente da relação bilateral não autoriza qualquer entusiasmo. A política externa norte-americana, marcada pela imprevisibilidade e pela ameaça constante de rupturas tarifárias unilaterais, encontra sua contrapartida no expansionismo assertivo de Pequim, na intimidação sobre Taiwan, no controle agressivo das rotas do Mar do Sul da China. Na última década, ambos os governos notabilizaram-se por esvaziar fóruns multilaterais e instrumentalizar as regras de comércio como arma de coerção. Falar em "coexistência" num cenário em que  a confiança mútua foi deliberadamente destroçada soa como estratégia retórica para ganhar fôlego, não como inflexão genuína.

O que o impasse atual — entre uma potência estabelecida que resiste em ceder espaço e uma nação ascendente que reivindica protagonismo imediato — exige não é um armistício calibrado pelas conveniências do calendário político de cada capital, mas salvaguardas concretas: regras de comércio previsíveis, canais de comunicação que funcionem fora das cúpulas e mecanismos de contenção de crises que independem da disposição pessoal de dois líderes.

A invocação de Tucídides serve como lembrete de que a história não costuma perdoar a arrogância de grandes impérios. Se os Estados Unidos insistirem na contenção de Pequim pela força comercial bruta, recusando-se a acomodar o novo peso geopolítico chinês, e se a China confundir ascensão econômica com salvo-conduto para atropelar a soberania alheia, o confronto deixará de ser uma analogia política com a Grécia Antiga para se tornar um trágico fato consumado. A história reserva encargos pesados para quem subestima o custo de um erro de cálculo nessa escala.

 

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Por Opinião
postado em 15/05/2026 05:00 / atualizado em 15/05/2026 05:53
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