ARTIGO

A sustentabilidade do jornalismo, pilar da democracia, passa pelo engajamento da sociedade

O jornalismo ocupa papel central no bem-estar social e no funcionamento da democracia, mas o debate sobre liberdades, sustentabilidade e papel social dessa atividade mobiliza pouca atenção nas redes

Hélio Gama Netoassessor de Comunicação da Associação Nacional de Jornais (ANJ)

Campanhas coordenadas de deslegitimação, ataques estigmatizantes,  assédio judicial, criminalização, assassinatos, prisões, censura direta e indireta, impunidade em crimes contra comunicadores e retórica pública agressiva de detentores de poder voltada a desacreditar jornalistas passaram a integrar o cotidiano da atividade em diferentes regiões do mundo. Essa degradação limita a capacidade de ação do jornalismo, abre espaço para corrupção, enfraquece políticas de direitos civis e reduz a democratização da informação e do conhecimento.

No Brasil, apesar da melhora no ranking mundial da liberdade de imprensa da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), com avanço de 11 posições e a 52ª colocação entre 180 países, chama atenção o volume de ataques virtuais em 2025: 900 mil registros, cerca de 2,5 mil por dia ou quase duas agressões por minuto, crescimento de 35% em relação ao período anterior, segundo a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). O levantamento também aponta aumento de 57% nos casos de censura, com presença recorrente de agentes públicos entre os autores.

Enquanto o jornalismo enfrenta pressão e a necessidade de construir novos modelos de negócio, em um cenário de migração de receitas publicitárias para plataformas das grandes empresas digitais, o debate sobre liberdades, sustentabilidade e papel social do jornalismo mobiliza pouca atenção nas redes. Conteúdos produzidos com método, apuração rigorosa e responsabilidade editorial disputam espaço com materiais manipulados, campanhas de ódio e estratégias que exploram emoção e conflito.

Os resultados de busca, cada vez mais por meio de ferramentas de inteligência artificial, reproduzem boa parte dos conteúdos jornalísticos e reduzem o acesso direto aos veículos, afetando audiência e visibilidade para anunciantes. O uso desse material, tanto na indexação quanto no treinamento de modelos de IA, não gera remuneração proporcional a quem investe na produção de informação confiável. Soma-se a assimetria regulatória: editores respondem legalmente pelo que publicam, enquanto plataformas operam com menor nível de responsabilização.

Há ainda ampla liberdade para impulsionamentos pagos nas redes sociais e buscadores, inclusive de conteúdos desinformativos e fraudes, enquanto o jornalismo opera sob restrições mais rígidas. Nesse ambiente, a disputa por atenção e confiança ocorre dentro de uma lógica orientada por engajamento, retenção e tempo de permanência, o que favorece conteúdos que geram emoções fortes ou se sustentam em distorções.

Ainda assim, a discussão sobre integridade da informação e sustentabilidade do jornalismo avança na agenda internacional. Países buscam respostas regulatórias. A Austrália é um dos principais exemplos. Ampliou o modelo criado em 2021 e propôs um mecanismo de incentivo econômico para acordos entre plataformas e empresas jornalísticas. A proposta prevê taxa de 2,25% sobre a receita de grandes empresas de tecnologia, com redução ou isenção condicionada à celebração de contratos de remuneração com veículos.

No Brasil, essa discussão tem ritmo mais lento, embora ganhe impulso. Liberdades de imprensa e de expressão, pluralidade, desafios tecnológicos e busca por modelos de negócio sustentáveis aparecem nas programações de eventos como o Summit da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), o Festival 3i da Associação de Jornalismo Digital (AJOR), o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o 4º Data Day da Associação Nacional de Jornais (ANJ).

Há necessidade de avançar também na capacitação contínua de jornalistas e redações, responsáveis pela produção da matéria-prima da indústria jornalística: reportagens, análises e serviços, em diferentes formatos e canais.

O jornalismo de método, plural, independente e responsável sustenta transparência, viabiliza fiscalização, revela conflitos de interesse e contribui para decisões mais qualificadas, com impacto direto sobre a garantia de direitos.

Atenta a esse cenário, a ANJ propõe, a partir deste ano, o ciclo de debates "Jornalismo em Profundidade", voltado à troca de experiências, apresentação de casos e disseminação de técnicas para qualificar a produção jornalística.

A entidade também dialoga com possíveis parceiros para três frentes temáticas: qualidade editorial e uso de IA nas coberturas setoriais; jornalismo econômico; e cobertura ambiental, um ano após Belém, com estratégias de engajamento do público.

O jornalismo ocupa papel central no bem-estar social e no funcionamento da democracia. Ao mesmo tempo, o engajamento da sociedade é decisivo para sustentar a atividade jornalística.

 

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