ARTIGO

A panturrilha de Neymar e a lição que vem de Branco em 1994

Carlo Ancelotti vislumbra a possibilidade de o jogador desequilibrar em algum instante na Copa. Virou questão de fé, mística. E Neymar deveria usar a perseverança de Branco como maior inspiração

A 14 dias da estreia do Brasil contra Marrocos na Copa do Mundo de 2026, eu poderia comparar o tratamento intensivo de Neymar no tratamento de uma lesão de grau 2 na panturrilha ao calvário de Zico em 1986 ou de Romário em 1990 e em 1998, como publicamos em uma matéria no último dia 22 no Correio, mas refresco a memória com uma outra história do fundo do baú da Seleção.

Há 32 anos, Carlos Alberto Parreira tomou uma das decisões mais seguras na campanha do tetracampeonato nos Estados Unidos. Claudio Ibrahim Vaz Leal, o Branco, não era o astro da companhia, mas ocupava um pedestal importante no elenco convocado para a Copa de 1994: o lateral havia disputado o torneio em 1986 e em 1990. Exalava experiência.

Antes do Mundial, Branco sofreu uma grave lesão no nervo ciático. A enfermidade causava forte dor na bacia. O médico Lídio Toledo também revelou à época um outro diagnóstico: a perna esquerda do jogador é um centímetro mais curta do que a direita. Portanto, uma das causas da insuportável lesão nas costas. Ele passou a usar uma palmilha no pé esquerdo.

Aos 30 anos, Branco vivia um drama. Havia argumentos para que fosse cortado. Chateado com as notícias de que ele havia sido reprovado nos testes físicos, iniciou uma greve de silêncio. O lateral treinava à base de Voltaren, um anti-inflamatório forte. Em um treino, o preparador físico Moracy Sant’Anna fez uma sessão de pique curto. Branco não aguentou. Caiu na metade.

Branco foi chamado para uma reunião. Tinha certeza do corte, mas ouviu do médico Lídio Toledo a promessa de que iria recuperá-lo em uma semana. Carlos Alberto Parreira participou e bancou a permanência com as seguintes palavras: “Tu foi, tu é e tu vai ser importante”, lembra Branco.

A contrapartida foi cumprir o protocolo da fisioterapia. Eram até três sessões diárias. Branco lutava contra a dor. Tomava injeções, não treinava no gramado, usava gelo no local da contusão e fazia banheira de hidromassagem. Um calvário antes e durante a Copa.

Branco não ficou no banco contra Rússia, Camarões e Suécia na fase de grupos. Foi relacionado para as oitavas contra os EUA. Tinha certeza de que entraria quando Leonardo recebeu cartão vermelho por dar uma cotovelada em Tab Ramos. O técnico improvisou o lateral-direito Cafu. Branco discutiu com Parreira e Zagallo, mas ouviu que seria titular nas quartas.

Promessa cumprida. Branco estreou na Copa do Mundo contra a Holanda. Assumiu a posição de Leonardo. Havia uma preocupação: o duelo à parte com o ponta Overmars. Branco não somente deu conta como fez o gol da vitória do Brasil. A Seleção abriu 2 x 0 em Dallas, mas a Laranja Mecânica empatou. Coube justamente a Branco, em um golaço de falta, acertar o canto esquerdo de Ed de Goeij depois do contorcionismo de Romário para evitar um choque com a bola, a classificação para as semifinais depois de 24 anos. A última havia sido no México, em 1970.

Como prometeu Lídio Toledo, Branco estava recuperado. Fez o terceiro gol do Brasil com a perna vítima de cinco injeções. Parreira havia bancado que ele seria importante e Branco foi decisivo nos pênaltis contra a Itália ao converter a cobrança dele.

Qualquer semelhança com a luta de Neymar para jogar a Copa e a decisão da comissão técnica de Carlo Ancelotti de mantê-lo no grupo com uma lesão de grau 2 na panturrilha é mera coincidência. O italiano vislumbra a possibilidade de o jogador eleito duas vezes número 3 do mundo desequilibrar em algum instante na Copa. Virou questão de fé, mística. E Neymar deveria usar Branco como maior inspiração.

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