
Trocar figurinhas, papéis de carta e bolas de gude era rotina nos meus tempos de criança, nos anos 1980. Nos primeiros anos de infância dos quais me lembro, inclusive, não tinha isso de autocolante, não. Era lambuzar o dedo de cola e fixar as figurinhas no álbum; muitas ficavam com os cantinhos soltos. Depois, a gente esfregava um dedo no outro com satisfação, até o resíduo sair.
Se as crianças de 2000 para cá só desfrutam das alegrias de rasgar um pacote de figurinha (alegria que vira raiva quando vem tudo repetido) a cada quatro anos, colecionar álbuns era muito comum naqueles tempos. Bem-me-quer, Amar é, Luluzinha, Turma da Mônica, Rock in Rio, ET, Mundo Animal, Ursinho Carinhoso, Barbie… Minhas irmãs e eu fazíamos todos.
Nem sempre completávamos. Às vezes, a gente comprava para colar no caderno. As repetidas também iam para a porta do armário. Mas, no geral, as sobras eram valiosíssimas moedas de troca. Na minha antiga quadra, a 304 Norte, a Zezé da banca sabia quem colecionava o quê, e apresentava as crianças umas às outras. Provavelmente, muitas amizades começaram assim.
Debaixo dos blocos de Brasília, havia sempre um grupinho em círculo, tentando descolar as figurinhas mais raras. Todo álbum tinha aquelas quase impossíveis. No da Mônica, era a do Horácio. Certa vez, fomos contempladas com o tesouro, era a que faltava para completar o nosso. Naquele dia, fomos atingidas por uma dupla decepção: nosso vizinho surrupiou a figurinha. Perdemos a chance de completar o álbum e, de quebra, o nosso então melhor amigo da quadra.
A Copa sempre causou mais frisson no mundo dos colecionadores de álbuns. Não sei dizer se eram mais caras do que as figurinhas de personagens ou de filmes porque não me interessavam. Mas sei que as de agora custam R$ 7. Meu sobrinho Luigi está fazendo seu primeiro álbum. Quase caí para trás quando soube que os R$ 20 que separei para ele não deram nem para três pacotes.
Gourmetizaram as figurinhas. Como assim, para completar o álbum é preciso gastar mais de R$ 1 mil? E, como assim, inventaram uma "case" para guardar figurinha? A gente comprava as nossas com moedinhas da mesada, amarrava as repetidas com elástico amarelo, e ficava tudo organizadinho. Sem isso de "case". Sem isso de álbum milionário.
Pensando bem, sorte das crianças de hoje que figurinha só entra na moda a cada quatro anos. Mais sorte ainda dos pais (e tios) delas.

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